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Exercitando olhares segmentados em saúde mental: cuidados com adolescentes e mulheres

Não seguir uma “receita de bolo” para trabalhar a saúde mental é uma das premissas básicas para desenvolver soluções que considerem as necessidades específicas de cada grupo



No último ano insistimos muito na necessidade de abordar saúde mental para além dos impactos provocados pela pandemia. Pontuamos inúmeras vezes que, por maiores que estejam sendo as consequências do isolamento social, precisamos reconhecer que esse desafio é antigo e não, exclusivamente, um efeito da pandemia. Nossa sociedade já apresentava um aumento crescente de sofrimentos psicológicos há muito tempo e, com a crise sanitária, o debate sobre saúde mental entrou em pauta de forma definitiva.


Neste segundo conteúdo da série especial Saúde Mental é Todo Dia! vamos retomar esse assunto e explicar porque a saúde mental já ocupa, ainda que silenciosamente, todas as esferas de nossas vidas todos os dias, de forma permanente. Para avançar no debate e nas práticas de cuidado em saúde mental é preciso partir de algumas premissas básicas sobre o tema.


Não temos a intenção de esgotá-las neste post, mas vamos pontuar alguns entendimentos muito importantes para nós, aqui no Instituto Cactus, que foram amadurecidos ao longo de 2021:

  • Mesmo que o sofrimento psíquico seja comum a todas as pessoas, os impactos são diferentes porque quando falamos em saúde mental precisamos considerar os determinantes sociais que atravessam o tema, como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho, transporte, cultura, etc. Com a pandemia, as desigualdades sociais foram agravadas em todo o mundo e países de baixa renda apresentam grave aumento em condições de saúde mental;

  • Nesse cenário, populações em situação de vulnerabilidade e minorias sociais são particularmente afetadas: mulheres vítimas de violência doméstica; crianças e adolescentes negligenciados em fases tão importantes para o desenvolvimento; pessoas LGBTQIA+ vítimas de homofobia; e pessoas negras vítimas de racismo são alguns exemplos de grupos que se tornam mais suscetíveis ao adoecimento mental devido a questões estruturais. Por isso é necessário exercitar olhares segmentados para a saúde mental e priorizar alguns grupos que merecem atenção e cuidado de forma emergencial;

  • E não existe uma “receita de bolo” para atuar com saúde mental, nem uma solução que funciona para todas as pessoas ou um único caminho que dê conta de toda a complexidade desse tema. Para falar sobre saúde mental é preciso incorporar uma “lente de aumento” para viabilizar olhares direcionados para cada grupo, pois suas especificidades determinam como se deve atuar.


Partindo dessas premissas e entendendo que não tem como melhorar os índices de educação, trabalho, alimentação, moradia, entre tantos outros, sem olhar de forma permanente para a saúde mental, defendemos que ela pode ser catalisadora de mudanças em todos os setores sociais. Por isso, costumamos dizer que saúde mental é uma tarefa coletiva, que precisa da união de esforços entre poder público, setor privado, sociedade civil e academia, atuando de forma intersetorial e multidisciplinar.


Mas, apesar de a responsabilidade ser compartilhada, não podemos criar barreiras de ação na tentativa de encaixar as estratégias e abordagens de prevenção de doenças e promoção da saúde mental em “caixinhas”, de forma setorizada, ministerial ou mesmo temática. Para uma atuação intersetorial efetiva precisamos de responsabilidades definidas e diretrizes claras nos marcos legais, além de incentivos e ferramentas para efetivação dessas políticas e desses direitos.


Elegendo públicos prioritários: adolescentes e mulheres


Na impossibilidade de atacar todos os problemas de uma única vez de forma efetiva e consistente, elegemos adolescentes e mulheres como públicos prioritários para focar nossas ações aqui no Instituto Cactus.


Eles são os líderes dessa e das próximas gerações e elas, as principais responsáveis por práticas de cuidado, predominando em categorias como educadoras, enfermeiras, assistentes sociais etc., além de referências em seus núcleos familiares. São importantes vetores de mudança e têm recebido uma atenção insuficiente.


A escolha desses públicos ilustra como um olhar cuidadoso, empático e direcionado pode ser feito quando se trata de olhar para públicos específicos. Entendemos que esses grupos trazem questões relevantes que merecem ser priorizadas na compreensão e abordagem da saúde mental. Entenda em alguns pontos:


Adolescentes: vivem uma fase marcada por transformações psicossociais em que acontece a construção da identidade e existem inúmeras mudanças na anatomia, fisiologia, no ambiente social, na relação com a sexualidade etc. Apesar disso, a adolescência é, muitas vezes, um momento invisível e negligenciado, o que gera estigmas e impactos negativos na qualidade de vida dos adolescentes, e que serão carregados até a fase adulta.

  • De acordo com os dados reunidos em nosso levantamento Caminhos em Saúde Mental, 50% das condições de saúde mental começam até os 14 anos de idade e afetam 3 a cada 4 pessoas até os 24 anos;

  • Aproximadamente 80% dos casos não são diagnosticados ou tratados adequadamente e, por isso, muitos dos quadros que poderiam ser prevenidos ou recebido intervenções precocemente se agravam e afetam não só o indivíduo, mas todo o seu entorno. Nesse sentido, a prevenção em saúde mental é extremamente necessária;

  • O rótulo de “aborrescente”, que os define como inconsequentes e rebeldes sem causa, naturaliza os obstáculos dessa fase da vida e diminui o sofrimento decorrente de violências sexuais e domésticas, bullying etc.. A falta de compreensão e cuidado com a saúde mental nessa fase tem também repercussões drásticas na vida desses jovens, como o uso abusivo de substâncias, desenvolvimento de psicopatologias, reflexos negativos nas relações interpessoais e comportamentos de risco para aqueles que são tidos como o “futuro da nação”.


Esse é o público que, no futuro, serão os líderes da sociedade, cidadãos e agentes de transformação do mundo. Mas como construir o futuro sem cuidar no presente da saúde mental de quem será responsável por ele? Os estigmas e as consequências de transtornos não tratados impactam a qualidade de vida desses adolescentes por toda a vida, sua habilidade de convívio em comunidade, sua produtividade e suas relações sociais e com o meio ambiente.



Mulheres: a prevalência de condições de saúde mental é maior nas mulheres, quando comparadas aos homens, e isso vai muito além da perspectiva biológica. O gênero implica diferentes suscetibilidades e exposições a riscos específicos para a saúde mental devido a diferentes processos biológicos e relações sociais. Nascer mulher perpassa papéis, comportamentos, atividades e oportunidades que determinam o que podemos experimentar ao longo da vida e, portanto, estabelece vivências estruturalmente diferentes daquelas experimentadas pelos homens. Veja alguns dados que ilustram essas diferenças:

  • Uma em cada cinco mulheres apresenta transtornos mentais comuns e a taxa de depressão é, em média, o dobro da taxa de homens com o mesmo sofrimento, podendo ainda ser mais persistente nas mulheres;

  • A sobrecarga física e mental de trabalho é apontada como um dos principais fatores que deixam as mulheres especialmente vulneráveis aos sofrimentos psicológicos: em mulheres com alta sobrecarga doméstica, por exemplo, o número de mulheres com transtornos mentais comuns vai de 1 a cada 5 mulheres para 1 a cada 2 mulheres;

  • Os dados anteriores impactam também os dados sobre tentativas de suicídio – mulheres são duas vezes mais propensas.


O acolhimento das mulheres com questões de saúde mental demanda um olhar ampliado para outras questões físicas, psicológicas e sociais relacionadas ao gênero. Nesse ponto do debate, nos deparamos com um desafio importante: a falta de compreensão e a fragmentação nos serviços de saúde. Os profissionais admitem que nos atendimentos, no geral, as mulheres se calam sobre a violência de gênero, ao mesmo tempo em que intensificam a procura por serviços de saúde, sendo estereotipadas como “poliqueixosas”. Arquétipo que, além de prejudicar as estratégias de tratamento, é também uma forma de violência institucional contra mulheres, que muitas vezes enfrentam o estigma no próprio processo de tratamento.


Com foco nesses públicos, estamos exercitando olhares segmentados para construir soluções que deem conta das individualidades e que contribuam para a construção de práticas e intervenções coletivas, que provoquem mudanças estruturais e que impactem cada vez mais pessoas.

>> Quer saber mais sobre saúde mental? Baixe o levantamento Caminhos em Saúde Mental na íntegra