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Não é apenas sobre debater: precisamos investir em saúde mental com olhares segmentados

Com processos segmentados e abordagens específicas para cada público estamos promovendo a cultura de promoção e prevenção em saúde mental





Muito tem se falado sobre saúde mental devido aos enormes impactos da pandemia na vida de todos nós. Por maiores que sejam as consequências do isolamento social, para avançar no caminho de soluções para esse adoecimento é necessário reconhecer que esse problema não é, exclusivamente, um efeito da pandemia. Nossa sociedade já demonstrava de sofrimentos psicológicos há muito tempo.


Mas, mesmo que o sofrimento seja igual a todas as pessoas, os impactos são diferentes porque quando falamos em saúde mental é preciso considerar os determinantes sociais que atravessam o tema, como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho, transporte, cultura, etc. Atualmente, com a crise sanitária já são mais de 14 milhões de pessoas desempregadas no Brasil e só nos primeiros meses de pandemia, mais da metade desse número eram mulheres. Ao mesmo tempo que mais da metade da população declara que a saúde mental piorou um pouco ou muito no último ano.


Nesse cenário, as minorias sociais são particularmente afetadas: mulheres vítimas de violência doméstica, crianças e adolescentes negligenciados, LGBTQIA+ vítimas de homofobia, pessoas negras vítimas de racismo são alguns exemplos de grupos que se tornam mais suscetíveis ao adoecimento mental devido a questões estruturais da nossa sociedade. Por isso é necessário ter olhares segmentados para a saúde mental e priorizar alguns grupos que merecem atenção e cuidado de forma emergencial.


Não podemos pensar soluções únicas, que tratem da mesma forma sofrimentos que têm atravessamentos diferentes, precisamos criar processos adequados e propor abordagens específicas para cada público para promover a cultura de promoção e prevenção em saúde mental. Para pessoas em situação de vulnerabilidade, sabemos que se vincular ao processo psicoterapêutico pode ser um desafio, assim apostamos em modalidades que viabilizem o acesso a esses serviços.


A crise provocada pela pandemia de Covid-19 agravou muito esse cenário. Com a perda da renda e o aumento da desigualdade de renda e de acesso a serviços, os efeitos da crise socioeconômica na saúde mental são ainda piores para as pessoas em situação de vulnerabilidade. Com o isolamento social, a disparidade de gênero, a violência doméstica e a sobrecarga das mulheres aumentaram ao mesmo tempo em que as redes de suporte diminuíram, uma vez que muitas vítimas ficaram confinadas com seus agressores sem possibilidade de ajuda externa. Todos esses fatores favorecem a prevalência de doenças mentais nas mulheres, por isso precisamos cuidar desse público com ainda mais urgência.


O investimento brasileiro em pesquisas e serviços no campo da saúde mental ainda é muito tímido quando comparado a outras áreas do conhecimento. Segundo dados do levantamento Caminhos em Saúde Mental, que lançamos em junho em parceria com o Instituto Veredas, no período de 2002 a 2020 foram financiados 6.461 projetos de pesquisa em saúde, totalizando um investimento de R$1,4 bilhão. Já para a saúde mental, especificamente, no mesmo período houve o financiamento de apenas 249 projetos com R$27 milhões, apenas 1,87% do total investido.


Mesmo que a saúde mental represente cerca de um terço da carga global de doenças, os investimentos em pesquisa corresponderam somente a 1,9% do valor total investido em saúde. Como viemos alertando, em termos de investimento social privado, apenas 4% do total de R$2,5 bilhões de investimento social privado no Brasil em 2019 foram destinados à saúde e esporte, bastante abaixo do que seria necessário para intervenções estruturais no campo.


Atendimento psicológico para mulheres em situação de vulnerabilidade


Para avançar no caminho de investir em projetos e redes de serviços comunitários que viabilizam o acesso de mais pessoas aos atendimentos de saúde mental, propósito que para nós, do Instituto Cactus, pode transformar o cenário da saúde mental do país, estamos financiando um projeto de atendimento psicológico de urgência e emergência para mulheres em parceria com a Casa de Marias, organização de escuta e acolhimento.


De agosto a janeiro do ano que vem, 288 mulheres poderão se beneficiar do cuidado, acolhimento, escuta e atendimento psicológico* de uma equipe especializada e de forma completamente gratuita, por duas modalidades principais, o plantão psicológico individual e o grupo de acolhimento emergencial, modalidade ainda pouco explorada como ferramenta de acolhimento para estes contextos. O público alvo do projeto são mulheres negras, indígenas e periféricas de todo o Brasil e o atendimento acontecerá de forma remota, por meio de canais e/ou ferramentas adequadas para cada mulher atendida. Sabemos que focar nesse grupo não é um recorte exaustivo, mas compreendemos que elas têm um enorme potencial de transformação social e também como promotoras da saúde mental em seus trabalhos, núcleos familiares e comunidades, tornando-se multiplicadoras dessa causa.


Nossa expectativa com esse projeto é chamar a atenção para a necessidade de se pensar em projetos de saúde mental desse público, realizar o acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade e, ainda, gerar insumos para validar o quanto este tipo de escuta emergencial, principalmente a feita em grupos de apoio em um formato inovador, como uma modalidade que pode ser institucionalizada e replicada em contextos de urgência.


A avaliação será feita, principalmente, levando em conta a vasta experiência da Casa de Marias com o acolhimento de mulheres em diferentes modalidades, o que nos permitirá avaliar especificamente os formatos oferecidos em comparação com outros e elaborar uma recomendação de implementação sistematizada para esse tipo de atendimento, seja dentro ou fora de políticas públicas.


>> Inscreva-se até 1 de agosto:

https://casademarias.com/grupo-de-acolhimento-emergencial-aberto/

https://casademarias.com/plantao-psicologico-para-mulheres/



* O projeto é coordenado por quatro psicólogas. O grupo de acolhimento emergencial será liderado pela psicóloga Camila Generoso (CRP 06/82630). Psicóloga e psicopedagoga, possui especialização em Desenvolvimento Infantil e aprimoramento em Psicanálise da Criança pela PUC-SP; e pela psicóloga Deisy Pessoa (CRP 06/157161), graduada em Psicologia com ênfase Clínica e Saúde Pública, com atuação na Atenção Psicossocial, trabalhando com a comunidade local do Capão Redondo em ações de inclusão de diversidades nas atividades artísticas terapêuticas oferecidas pelo CECCO.


O plantão psicológico é liderado pela psicóloga Eneida de Paula (CRP 06/135390), psicóloga formada pela FMU, com especialização em Psicologia e Relações Raciais – Instituto AMMA Psique e Negritude e em Técnica de Estresse Pós-Traumático segundo Modelo Francine Shapiro – EMDR; e pela psicóloga Lucila Xavier (CRP 06/141984), psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência de 5 anos como Acompanhante Terapêutica de crianças e adolescentes com TEA e estágios nas áreas de psicologia jurídica e clínica. Atualmente em formação no curso teórico vivencial de Psicologia e Relações Raciais do Instituto AMMA.