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“Que bom que você veio”: projeto de acolhimento psciol ajuda a democratizar o acesso à saúde mental



Em 27 de outubro comemora-se o Dia de Mobilização Nacional Pró-Saúde da População Negra, instituído em 2006, mesmo ano em que o Conselho Nacional de Saúde aprovou uma política de enfrentamento ao racismo e a promoção da saúde da população negra no SUS (Sistema Único de Saúde).


Esse marco foi fruto da mobilização de profissionais, estudiosos e ativistas que perceberam a necessidade de olhar de forma específica e adequada para a saúde de negros e negras, 54% da população brasileira. Segundo o Ministério da Saúde, 80% da população “SUS dependente”, ou seja, pessoas que têm acesso a serviços e tratamentos de saúde exclusivamente por meio do sistema público, se autodeclara negra. Esse dado nos leva a refletir sobre a relação entre vulnerabilidade socioeconômica, estigmas raciais e o acesso à saúde.


Sabemos que, mesmo que os sofrimentos psíquicos e os adoecimentos mentais sejam comuns a todas as pessoas, os impactos são diferentes quando consideramos os determinantes sociais que atravessam o tema, como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho, transporte, cultura, entre outros. Nesse cenário, as minorias sociais são particularmente afetadas: mulheres vítimas de violência doméstica, crianças e adolescentes negligenciados, LGBTQIA+ vítimas de homofobia, pessoas negras vítimas de racismo são alguns exemplos de grupos que se tornam mais suscetíveis ao adoecimento mental devido a estigmas e questões estruturais da sociedade brasileira.


Tudo isso reforça a necessidade de ter olhares segmentados para atuar com prevenção de doenças e promoção da saúde mental, a partir da definição de públicos prioritários para um trabalho mais assertivo e sustentável no campo. Quando abordamos a saúde mental de pessoas em situação de vulnerabilidade, precisamos olhar para a totalidade dos estigmas que carregam.


Ana Carolina Barros, coordenadora geral da Casa de Marias, organização de escuta e acolhimento psicológico, lembra que quando olhamos os dados sobre saúde mental no Brasil, como índices de depressão, ansiedade, afastamento do trabalho, entre outros, temos cenários bastante diferentes para população negra e população branca. “Nossa experiência de vida e de saúde tem a ver com uma série de traumas históricos que o nosso país viveu. A população negra tem oportunidades de trabalhos muito mais precarizados e condições de vida muito mais desestruturadas e sua saúde mental tem uma relação direta com essas questões estruturais.”



Como exemplo de intervenção em saúde mental da população negra, no Instituto Cactus apoiamos um projeto de acolhimento psicológico emergencial para mulheres negras, indígenas e periféricas* em parceria com a Casa de Marias. Sabendo que se vincular ao processo psicoterapêutico pode ser um desafio para pessoas em situação de vulnerabilidade, apostamos em modalidades que viabilizem o acesso a esses serviços. O projeto teve início em agosto e até janeiro de 2022, a equipe da Casa de Marias vai acolher, de forma completamente gratuita, até 288 mulheres maiores de 18 anos nos serviços de atendimento psicológico.


A iniciativa é coordenada por um grupo de mulheres negras que atuam com olhar especial para as questões que envolvem classe, gênero, raça e território nas práticas de cuidado oferecidas. As vagas são ofertadas em duas modalidades: os grupos de acolhimento emergenciais e os plantões de emergência, sendo disponibilizadas 40 vagas por mês nos grupos de acolhimento emergenciais abertos, com 1 encontro semanal com 10 vagas por semana, e até 8 vagas por mês de plantão psicológico ou triagem emergencial, realizando de 1 a 2 atendimentos por semana.


Para Camila Generoso, psicóloga e psicopedagoga que lidera o grupo de acolhimento emergencial, cuidar da saúde mental das mulheres negras é uma necessidade urgente. “Sempre começo os atendimentos dizendo ‘que bom que você veio’ porque a gente sabe que a população negra tem muito menos acesso aos recursos e ferramentas de saúde mental. Então quando vejo uma mulher negra que conseguiu acessar é muito bom”. Essa recepção faz parte do olhar apurado das profissionais da Casa de Marias, que valorizam a importância da figura da psicóloga no processo terapêutico, mas também entendem que muitas pessoas negras já sofreram violência nesse tipo de processo.


“Eu não precisar explicar pra minha psicóloga que sofri racismo quando fui perseguida em um comércio, por exemplo, é muito importante. Ter que explicar o racismo da situação vivida é reviver a violência, é uma forma de violência dentro do processo terapêutico”, explicou Ana Carolina. Os traumas gerados por uma situação em que a figura que deveria acolher, acaba agredindo, influenciam profundamente a saúde mental de uma pessoa.


Mas mesmo pessoas que nunca tinham tido acesso a este tipo de atendimento podem se sentir inseguras com o processo terapêutico, por isso muitas acabam não acessando o canal de comunicação estabelecido com a psicóloga para realizar o atendimento no horário combinado. Daí vem a sensibilidade das profissionais da Casa de Marias, que entram em contato via mensagens de texto para reforçar o convite e evitar a desistência.


A acolhida “que bom que você veio” celebra a persistência daquelas que, mesmo em situações muito adversas, não desistiram de cuidar de sua saúde mental.



Gerando aprendizados sobre modalidades de atendimento para institucionalizar cuidados em saúde mental


A primeira modalidade, o plantão psicológico, é importante para acolher e compreender demandas pontuais e emergenciais. O serviço funciona como uma porta de entrada para outras modalidades de atendimento, com encaminhamentos para o trabalho terapêutico individual ou de grupo, quando necessário. Já os grupos abertos de acolhimento emergencial, a segunda modalidade do projeto, tem uma equipe de três profissionais (duas psicoterapeutas e uma supervisora) conduz um grupo rotativo de acolhimento, com frequência semanal.


À cada semana são oferecidas vagas individuais para atendimento em plantão psicológico, onde as solicitantes são acolhidas em até 24h por uma das duas psicólogas responsáveis pelos atendimentos. Toda semana também são disponibilizadas vagas para o grupo aberto cuja proposta é permitir o acolhimento das mais diversas demandas, variando-se e se renovando a cada encontro. Para participar, é necessário entrar em contato através do Whatsapp para verificar a disponibilidade de vagas e fazer a inscrição.


Além de contribuir para a democratização do acesso aos cuidados em saúde mental ao proporcionar cuidado para mulheres em situação emergencial, o projeto tem como objetivo gerar aprendizados sobre as modalidades de acolhimento psicológico para institucionalizá-las. “A expectativa é gerar insumos para validar o quanto este tipo de escuta emergencial, especialmente a modalidade em grupos de apoio, um formato inovador, pode ser institucionalizado e replicada em outros contextos de urgência”, afirmou Maria Fernanda Quartiero, diretora presidente do Instituto Cactus.


A modalidade de grupos é particularmente interessante porque possibilita que um número maior de mulheres sejam atendidas, mas também porque a escuta e identificação com outras mulheres, assim como a tomada de consciência sobre o caráter estrutural de sofrimentos psicológicos, é muito potente nos serviços de acolhimento em saúde mental porque, segundo a psicóloga Camila Generoso, a partir do momento que elas buscam alívio para aquele desespero imediato, percebem que não são problemas individuais.


“A identificação faz com que elas pensem nas próprias ferramentas e se questionem sobre quais recursos elas têm para amenizar seu sofrimento a partir da observação de mulheres com histórias parecidas. As trajetórias não são iguais, mas permitem um ponto de encontro entre elas e isso é muito potente porque, mesmo quando uma mulher não fala no grupo, ao ouvir outras histórias ela consegue se identificar e entender melhor a própria condição”.

Devido às medidas de isolamento impostas pela pandemia, os atendimentos são realizados de forma online e o projeto foi planejado para que, nesse formato, não se perdesse o cuidado e atenção singular com cada uma das mulheres que buscassem acolhimento. Por isso, a cada agendamento e inscrição, a equipe da Casa de Marias realiza um diálogo sensível para receber cada uma das solicitantes e entender quais são os melhores canais e/ou ferramentas para realizar os atendimentos, construindo um espaço seguro e de confiança desde o primeiro momento.



Um resultado bastante positivo do projeto até o momento veio da percepção de uma usuária do serviço: as terapeutas realizam intervenções que estimulam as mulheres dos grupos a pensarem as conexões entre duas questões e demandas e, em uma dessas ocasiões, uma participante compartilhou que, para ela, o grupo era como uma colcha de retalhos, “onde cada uma contribui para acalentar a outra”. Essa metáfora representa bem as avaliações mensais que são realizadas pela Casa de Marias: o projeto está cumprindo muito bem o serviço de acolhimento que se propôs a oferecer, atingindo o público certo e expandindo as redes de apoio.


Para a coordenadora Ana Carolina, esse aspecto da identificação é muito valioso nos grupos porque com a possibilidade de ouvir outras histórias as participantes dos grupos avançam no entendimento dos próprios sofrimentos e ampliam as próprias possibilidades de ação. “O grupo pode fazer com que uma situação que não tinha saída para uma mulher passe ter a partir da escuta de outra mulher, que pode viver uma situação parecida e enxergar de uma perspectiva diferente. Isso ajuda muito no processo e, para algumas mulheres que estão em estado de maior sofrimento, é também a possibilidade de contar com uma rede de apoio”.


Para Camila Generoso, outra surpresa positiva até o momento foi o formato remoto dos atendimentos. “Muitas mulheres ficam com a câmera fechada e com um tempo elas vão abrindo, quando identificam que é um espaço seguro. E claro que um grupo presencial tem uma diferença porque nos vemos de outra forma, mas não vejo prejuízo no atendimento online”.


Essas primeiras impressões do projeto reforçam nossa aposta institucional sobre a necessidade oferecer modalidades de escuta inovadoras em contextos emergenciais para expandir as oportunidades de cuidado, acolhimento e escuta das mulheres, em formatos diferentes dos que são oferecidos tradicionalmente e, frequentemente, a custos inacessíveis.


Olhares segmentados demandam abordagens adequadas às especificidades


A pandemia da Covid-19 afetou de forma mais significativa as mulheres, principalmente pela alta sobrecarga doméstica enfrentada, já que, em muitos casos, as mulheres precisaram trabalhar em casa ao mesmo tempo que as responsabilidades em casa, com filhos e demandas domésticas aumentaram. E a situação de confinamento também agravou as violências sofridas pelas mulheres dentro de casa, com agressor e agredido tendo que dividir o mesmo ambiente, e uma diminuição das redes de apoio neste momento de pandemia.


Para enfrentar esse contexto, não podemos lançar mão de estratégias gerais de cuidado, que não levem em conta as especificidades dessas mulheres, precisamos de olhares específicos e abordagens adequadas para criar soluções que dialoguem com os atravessamentos da saúde mental de cada público. O projeto em parceria com a Casa de Marias já nos trouxe alguns apontamentos para atuarmos, cada vez com mais assertividade, com saúde mental de mulheres em situação de vulnerabilidade.


Um ponto de atenção é a necessidade de atuação intersetorial para executar um serviço de atendimento de urgências psicológicas, uma vez que a saúde mental das acolhidas é atravessada por uma série de questões relacionadas a outras agendas sociais. Como explicou Lucila Xavier, psicóloga que lidera a modalidade de plantão do projeto, como o nível de sofrimento é muito grande, é preciso uma rede consolidada e outros serviços para oferecer um atendimento integral de uma situação de crise.


Foi muito comum, no decorrer dos atendimentos, a equipe da Casa de Marias acionar o núcleo de assistência social e jurídica da própria organização. Os casos mais graves não costumam se resolver apenas com o atendimento psicológico, por isso esse processo de acolhimento conjunto é fundamental. “Precisamos encontrar caminhos pensando nas condições que as mulheres têm para continuar o tratamento. A população negra acaba tendo, majoritariamente, apenas o SUS como ferramenta e possibilidade de cuidado, então a falta de investimento público é um desafio pra gente”.


Até o momento, a maior parte das mulheres atendidas pelo projeto são negras, com escolaridade até o ensino fundamental ou ensino médio não concluído, e com renda familiar total de até um salário mínimo e meio. As condições apresentadas não fogem dos padrões do cenário brasileiro, como ansiedade, depressão, luto intenso, mas com o agravante da experiência do racismo. Muitas mulheres falaram sobre sofrimentos psíquicos decorrentes da vivência de violências relacionadas à raça em diversos espaços sociais.


Na maior parte das situações, as atendidas pelo projeto não têm condições de arcar com atendimentos psicológicos tradicionais, nem mesmo serviços com valores sociais ou simbólicos. “Desenhamos o projeto justamente para alcançar as mulheres, que tiveram a saúde mental ainda mais impactada com a sobrecarga extra da pandemia, mas, especificamente, aquelas que não têm possibilidade de acessar esses cuidados, por falta de recurso financeiro. Esse recorte é muito importante para nós porque defendemos que precisamos democratizar o acesso às ferramentas de cuidados em saúde mental para transformar esse e melhorar a qualidade de vida no Brasil”, argumenta Maria Fernanda Quartiero, do Instituto Cactus.


Neste Dia de Mobilização Nacional Pró-Saúde da População Negra, aproveitamos esse projeto para reforçar a necessidade de exercitar olhares segmentados para atuar na prevenção e promoção da saúde mental no Brasil. E reforçamos também nosso compromisso com essa lente, apoiando projetos que deem conta da individualidade de cada um, com empatia, e que contribuam para a construção de práticas e intervenções mais efetivas.



*O projeto é coordenado por quatro psicólogas. O grupo de acolhimento emergencial é liderado pela psicóloga Camila Generoso (CRP 06/82630). Psicóloga e psicopedagoga, possui especialização em Desenvolvimento Infantil e aprimoramento em Psicanálise da Criança pela PUC-SP; e pela psicóloga Deisy Pessoa (CRP 06/157161), graduada em Psicologia com ênfase Clínica e Saúde Pública, com atuação na Atenção Psicossocial, trabalhando com a comunidade local do Capão Redondo em ações de inclusão de diversidades nas atividades artísticas terapêuticas oferecidas pelo CECCO. O plantão psicológico é liderado pela psicóloga Eneida de Paula (CRP 06/135390), psicóloga formada pela FMU, com especialização em Psicologia e Relações Raciais – Instituto AMMA Psique e Negritude, e em Técnica de Estresse Pós-Traumático segundo Modelo Francine Shapiro – EMDR; e pela psicóloga Lucila Xavier (CRP 06/141984), psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência de 5 anos como Acompanhante Terapêutica de crianças e adolescentes com TEA e estágios nas áreas de psicologia jurídica e clínica. Atualmente em formação no curso teórico vivencial de Psicologia e Relações Raciais do Instituto AMMA.