...
 
Buscar

Saúde mental na internet: como usá-la a nosso favor?




Temos falado bastante sobre como a pandemia colocou luz ao debate sobre saúde mental. Com isso, se intensificaram também as discussões sobre saúde mental na internet, um tema extremamente pertinente em tempos de isolamento social, em que a nossa relação com as telas e a conectividade extrapolaram algumas das fronteiras que antes existiam, sem que houvesse um processo educacional cuidadoso que nos preparasse para lidar com seus impactos.


Como nada em excesso faz bem, com a internet não poderia ser diferente: os adoecimentos e sofrimentos psíquicos provocados pelo consumo excessivo de tecnologias e telas em geral virou uma preocupação de muita gente. Mas é engano pensar que esse problema é “efeito pandemia”, mesmo antes do isolamento nossa relação compulsiva com a internet, especialmente as redes sociais, já dava sinais de prejuízos à saúde mental. Há anos pesquisas indicam potenciais malefícios do uso excessivo das redes e tempo de exposição às telas e o número de evidências não para de crescer, assim como os recursos tecnológicos não param de avançar, então esse debate é urgente e inadiável. Como podemos trabalhar nossa relação com a internet de forma mais saudável?


Aproveitamos este Dia do Internauta, comemorado em 21 de agosto, para avançar um pouco mais na compreensão sobre a relação saúde mental e internet. Não pretendemos esgotá-lo aqui, mas contribuir para a construção de formas seguras e saudáveis de aproveitar a tecnologia em nossas vidas. Claro que assim como qualquer outra ferramenta, a internet não é “problemática por natureza", tem suas qualidades e seus defeitos. Ela nos oferece uma infinidade de espaços para compartilhar ideias e trocar experiências, para expressar sentimentos e até traumas, e pode até mesmo abrir caminhos e oportunidades de cuidado para saúde mental por seu potencial de alcance e de acesso.


Mas precisamos entender como fazer dela uma aliada e não mais um fator de risco para nossa saúde mental. Por isso é importante nos questionar: como estamos usando a internet? Quantas horas do nosso tempo são dedicadas à ela? Pra que estamos usando: apenas consumimos conteúdo passivamente ou nos conectamos de forma ativa, buscando informações ou conteúdos específicos? O quanto esse uso prejudica nossa relação com o “mundo offline”? Existem impactos na nossa capacidade de escuta, conexão, acolhimento, presença, observação em ambientes físicos?


Vem cá ver mais uma coisa


Certamente você já ouviu dizer que “a internet é terra sem dono”, né? Essa percepção que temos de que não existem regras e limites, um espaço em que tudo é permitido, é um dos desafios do mundo digital. Precisamos encará-lo atacando as duas pontas do problema: pensar em formas de reduzir os danos já sofridos e também de prevenir danos futuros, considerando que a tecnologia não vai parar ou desacelerar seu ritmo. O tempo da internet não segue o nosso tempo biológico, lá as coisas acontecem em outra velocidade e essa sensação permanente de urgência prejudica nossa capacidade de refletir mais profundamente sobre os conteúdos consumidos e sobre a nossa relação com essa ferramenta.


A internet é por vezes sedutora e busca prender nossa atenção o tempo todo. Quando você dá um clique, ela te oferece outro e depois outro, num ciclo vicioso de “conteúdos sugeridos” após cada conteúdo visualizado, curtido e compartilhado. E é aí que vem aquela sensação de “nossa, passei o dia todo nisso”. Por isso precisamos aprender a dizer não para a internet e administrar todos os seus estímulos de acordo com as nossas reais necessidades. O surgimento constante de novas redes, novos recursos, novas possibilidades de interações estão atendendo a demandas que são nossas também? Precisamos mesmo de tudo isso? Por que queremos estar em todos esses lugares?


Além de adotar boas práticas em relação ao uso de telas e internet, como controlar o tempo de uso, desativar notificações e reduzir o número de contas em redes, precisamos dar um passo atrás e adotar uma postura crítica ao que nos é oferecido, tomando as rédeas dessa relação. Podemos (e devemos) dizer “não, internet, não quero ver isso agora” e focar no que estamos procurando quando acessamos algo, podemos optar por não estar conectados o tempo todo e podemos escolher momentos para manter as telas fisicamente longe de nós. Nossa capacidade de uso precisa andar de mãos dadas com a nossa capacidade de refletir sobre o que estamos fazendo.


Busca pela perfeição e impactos da desinformação na saúde mental


Mesmo que os prejuízos do uso excessivo da internet afetem todas as pessoas, o cenário se agrava quando recortamos o público adolescente, usuários assíduos de redes sociais, e se agrava mais uma vez se recortamos as meninas. Elas são duas vezes mais propensas que os meninos a apresentar sintomas de depressão em conexão ao uso das redes sociais, segundo estudo do University College London (UCL) divulgado em Londres. O estudo apontou que garotas de 14 anos representam 2 a cada 5 usuários ativos nas redes sociais, utilizando-as por mais de três horas diárias. Cerca de 3 a 4 meninas de 14 anos que sofriam de depressão também apresentaram baixa autoestima e insatisfação com a aparência.


Dados do relatório "Juventudes e a pandemia de Coronavírus” mostram que após um ano de pandemia, 6 a cada 10 jovens relatam ansiedade e uso exagerado de redes sociais, metade sente exaustão ou cansaço constante e 4 a cada 10 têm insônia ou tiveram distúrbios de peso. Todas essas situações foram ainda mais relatadas entre as mulheres e a idade parece mudar a percepção sobre questões de saúde: quanto mais velhos, mais apontam múltiplos impactos em seu estado físico e emocional; quando mais novos, mais indicam brigas frequentes dentro de casa.


Estudos de associação também apontam a relação entre a popularização das selfies e problemas de autoestima, assim como os sofrimentos psíquicos provocados pela busca dos padrões estéticos e de beleza. A busca por likes em redes sociais de fotos, as preferidas das mulheres jovens, causa distúrbios de imagem e faz meninas adolescentes submeterem a veiculação de suas imagens à aplicação de filtros, uma perfeição irreal que reflete problemas de insegurança e baixa autoestima. Os impactos negativos desse comportamento atingem, entre muitos outros, a imagem corporal e o sono, estimulando sentimentos de inadequação, raiva, desconfiança, ansiedade, depressão e solidão.


Outro agravante é a disseminação de desinformação, as fake news e também o excesso de informações, a infodemia. Ambos os fenômenos podem nos fazer sentir impotência frente às frequentes investidas de manipulação da opinião pública e aumentam nossa ansiedade e preocupação diante de tantas informações. Esse processo desvirtua uma das principais qualidades da internet: ser fonte de informação e conexão, um lugar para educar e engajar, criar conexões e redes de apoio.


Caminhos para usar a internet de forma positiva para a sua saúde mental


Para nós, do Instituto Cactus, além de encarar os problemas, é imprescindível propor soluções para melhorar a nossa relação com a internet. Não podemos rechaçar o uso de tecnologias nem determinar uma “forma correta” de usar, apontando outras como erradas, queremos propor uma postura de uso protetivo e apontar caminhos para um uso mais saudável. Para isso, queremos promover um diálogo mais próximo, aberto, honesto e interessado em compreender como a tecnologia funciona, e não apenas usá-la em “piloto automático”.


Como já falamos, algumas pessoas e organizações já se dedicam a entender essa relação bem antes da pandemia e, por isso, já temos algumas boas práticas para apontar. Reunimos 3 dicas sobre como usar a internet cuidando da saúde mental, formas saudáveis para lidar com o celular e algumas gentilezas digitais pra colocarmos em prática e melhorar nossa e usar a internet a nosso favor. Confira:


4 perguntas para se fazer ao usar a internet e cuidar da sua saúde mental, por Content.vc:

  1. Como você usa a internet?

  2. Por que você usa a internet?

  3. O que você vai usar da internet?

  4. Quanto você vai usar da internet?


8 maneiras de não deixar o celular te dominar, por André Carvalho:

  • Priorize as pessoas que estão à sua volta. Em algum momento elas podem não estar mais (diferente do celular).

  • Não xingue, não culpe e não brigue com o celular. Ele é indiferente aos seus sentimentos, se a bateria acabou, não é porque ele te odeia. É porque ele é... um celular.

  • Fique longe, desligue quando puder. reflita se você precisa realmente dele ao lado da cama, na mesa, no banheiro... o que é isso que não pode esperar?

  • Determine o seu tempo de uso, que não deve ser o tempo das notificações - inclusive desative todas, se puder.

  • Tente não se render ao desejo de checar a tela o tempo todo. existe uma vida fora do celular.

  • Não pense que você precisa estar sempre disponível. são tantas possibilidade de acesso, que parece que temos que dar conta conta de todas. mas não. o que é urgente, sempre chega, mesmo que você não esteja disponível

  • Seja seletivo ao que traz para o celular. apps, fotos, vídeos, contatos... tudo o que você coloca nele, é responsável pela sua dependência e frequência de uso

  • E, por fim, lembre-se: você nasceu sem celular, e ainda assim a vida era bela. Aproveite ela.


Pequenas gentilezas digitais que fazem toda diferença, por Content.vc:

  • Manter a educação e o bom senso na hora de fazer críticas

  • Responder comentários com afeto

  • Dar créditos sempre que postar uma criação de outra pessoa

  • Reconhecer erros e se desculpar sem rodeiros

  • Compartilhar o conteúdo de micro e pequenos criadores

  • Recomendar o trabalho de um amigo online

  • Ouvir o outro com atenção, mesmo via DM