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Sala de Imprensa

Em 10 de outubro comemora-se o Dia Mundial da Saúde Mental, uma data instituída em 1992 pela Federação Mundial de Saúde Mental com o objetivo de ressaltar a importância de cuidarmos da saúde da nossa mente e promover campanhas preventivas anuais. Após um ano e meio da pandemia de Covid-19 no Brasil, essa data se faz ainda mais importante pois todos sabemos os impactos individuais e coletivos provocados pelo período de isolamento social: aumento nos números de transtornos, uso de substâncias, a venda de medicamentos e os índices de violência. Os sofrimentos e adoecimentos psíquicos, no entanto, não são um fenômeno recente e precisamos aproveitar a urgência que o tema ganhou durante a pandemia para institucionalizar esse debate a longo prazo. Agindo de forma preventiva, podemos reduzir os danos da pandemia em nossa saúde mental. Neste Dia Mundial da Saúde Mental, nós, do Instituto Cactus, nos comprometemos mais uma vez com a prevenção de doenças e promoção da saúde mental todos os dias do ano, de forma permanente e contínua. Para aprofundar esse debate, ampliar as práticas de cuidado e construir uma nova cultura sobre saúde mental no Brasil, precisamos conhecer a realidade deste campo e nos basear em informações de qualidade e confiáveis. Nesse sentido, nosso primeiro grande esforço institucional foi a publicação do levantamento Caminhos em Saúde Mental, desenvolvido em parceria com o Instituto Veredas com o objetivo de oferecer um entendimento amplo e complexo a respeito da saúde mental no Brasil, considerando tanto os consensos produzidos pelos organismos internacionais quanto a própria experiência brasileira, e ouvindo especialistas de diversas áreas: sociologia, gestão pública, medicina e atores do campo. Acreditamos que saúde mental não é um projeto individual com começo, meio e fim, é um projeto coletivo para vida toda e de responsabilidade compartilhada. Selecionamos 8 dados do levantamento que são muito importantes para você entender como está a pauta da saúde mental no Brasil, quais são os prejuízos de não olhar para isso, informações específicas sobre a saúde mental de adolescentes e mulheres, lacunas de pesquisa e de tratamento, fatores de risco, serviços oferecidos pelo sistema de saúde e alguns caminhos de atuação. 1. Governança e economia: Conforme a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) Brasil, a saúde mental é uma das áreas mais negligenciadas do sistema de saúde pública mundial, o que impacta diretamente o acesso de milhares de pessoas. É importante destacar que 7 a cada 10 brasileiros são “SUS dependentes”, o que significa que o único acesso à saúde de 70% da população é pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Atualmente, em média, menos de 2% dos orçamentos públicos de saúde são alocados para a atenção pssicosocial globalmente, sendo que a situação é ainda pior em países de baixa e média renda, como o Brasil, em que se gasta menos de 2 dólares por pessoas são destinados à prevenção de doenças e promoção da saúde mental, comparado com um investimento de 50 dólares por pessoa em países de alta renda. Em termos de investimento social privado, apenas 4% do total de 2,5 bilhões de reais de investimento social privado em 2019 foram destinados à saúde e esporte, em uma categoria unificada, bastante abaixo do que seria necessário para intervenções estruturais no campo. Trabalhar dados e criar indicadores de saúde mental, gerando informação de qualidade e descomplicada, é uma das nossas apostas para otimizar os recursos destinados à atenção psicossocial. Um passo-chave que terá impacto positivo a cuidadores e usuários do sistema de saúde, permitindo que a alocação e uso do orçamento de recursos públicos sejam otimizados, e que os processos decisórios, a qualidade e a efetividade dos serviços públicos de saúde mental sejam aprimorados no país, impactando milhões de usuários. 2. Epidemiologia e carga de doença: Os números da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a prevalência de transtornos mentais, nem sempre incapacitantes, estimam que, a qualquer momento, cerca de uma em cada cinco pessoas de seus países membros pode apresentar um transtorno mental. Ao longo da vida, entre 40% e 50% experimentam algum tipo de adoecimento leve ou moderado, como de humor e ansiedade, e 5% apresentam transtornos graves. Os transtornos mentais comuns levam a perdas consideráveis na saúde e no funcionamento. Essas perdas podem ser quantificadas a partir da medição da Carga Global de Doença (Global Burden of Disease), que fornece três estimativas: Anos Vividos com Incapacidade (Years Lived with Disability - YLDs), que indica a quantidade de saúde perdida devido à doença; Anos de Vida Perdidos (Years of Life Lost - YLLs), que indica o impacto da doença devido à morte prematura; Anos de Vida Ajustados por Incapacidade (Disability Adjusted Life Years - DALYs), que é a principal métrica, calculada a partir da combinação de YLDs e YLLs. Em síntese, os DALYs fornecem uma medida composta da mortalidade e incapacidade atribuível a qualquer doença. Fonte: Global Burden of Disease (GBD) Brasil-2017 Em 2016, os transtornos mentais, neurológicos e por uso de substâncias foram responsáveis por 28% da carga não fatal de doenças ou de anos vividos com desabilidades (YLD), e 10% da carga total de doenças (DALY). Pessoas com transtornos mentais graves apresentam taxas desproporcionalmente altas de mortalidade na população adulta, que vivem em média 10 a 20 anos a menos do que a população em geral. Esse é principalmente o caso em contextos de baixa e média renda, devido a doenças evitáveis geralmente não serem reconhecidas e tratadas, como as cardiovasculares, respiratórias e infecções. Elas também têm de 2 a 3 ou até 4 vezes mais chances de morrer por causas não naturais como suicídio, homicídio, acidentes e fatores de risco para doenças não transmissíveis. 3. Negligências na adolescência: A adolescência é um período marcado por transformações psicossociais em que acontece a construção da identidade e existem inúmeras mudanças na anatomia, fisiologia, no ambiente social, na relação com a sexualidade, entre outros. Apesar disso, é um momento invisibilizado e negligenciado, o que gera estigmas e impactos negativos na qualidade de vida dos adolescentes, e que serão carregados até a fase adulta. Até 50% das condições de saúde mental começam até os 14 anos de idade e afetam 3 a cada 4 pessoas até os 24 anos. Segundo o Ministério da Saúde, em 2013, havia uma taxa de prevalência entre 10% e 12% de condições de saúde mental entre as crianças e adolescentes. No mundo, a estimativa é de que 10% a 20% dos adolescentes experimentam algum tipo de adoecimento psíquico, sendo a depressão um dos principais. Os adolescentes brasileiros sofrem, majoritariamente, de ansiedade (5% - 6%), problemas de comportamento ou conduta (4% - 7%), hiperatividade (1% - 2%) e depressão (1%). Os estigmas e as consequências de transtornos não tratados impactam a qualidade de vida desses adolescentes por toda a vida, sua habilidade de convívio em comunidade, sua produtividade e suas relações sociais e com o meio ambiente. Esse é o público que, no futuro, serão os líderes da sociedade, cidadãos e agentes de transformação do mundo, por isso precisamos olhar para a saúde mental deles. Veja alguns elementos que melhoram (fatores de proteção) e que agravam (fatores de risco) a saúde mental dos adolescentes: 4. Mulheres: A prevalência de condições de saúde mental é maior nas mulheres, quando comparadas aos homens, e isso vai muito além da perspectiva biológica. Segundo a OMS, o gênero implica diferentes suscetibilidades e exposições a riscos específicos para a saúde mental, por conta de diferentes processos biológicos e relações sociais. Nascer mulher perpassa papéis, comportamentos, atividades e oportunidades que determinam o que podemos experimentar ao longo da vida e, portanto, estabelece vivências estruturalmente diferentes daquelas experimentadas pelos homens. Uma em cada cinco mulheres apresenta transtornos mentais comuns e a taxa de depressão é, em média, o dobro da taxa de homens com o mesmo sofrimento, podendo ainda ser mais persistente nas mulheres. A sobrecarga física e mental de trabalho é apontada como um dos principais fatores que deixam as mulheres especialmente vulneráveis aos sofrimentos psicológicos: em mulheres com alta sobrecarga doméstica, por exemplo, o número de mulheres com transtornos mentais comuns vai de 1 a cada 5 mulheres para 1 a cada 2 mulheres. O acolhimento das mulheres com questões de saúde mental demanda um olhar ampliado para outras questões físicas, psicológicas e sociais relacionadas ao gênero. Nesse ponto do debate, nos deparamos com um desafio importante: a falta de compreensão e a fragmentação nos serviços de saúde. Os profissionais admitem que nos atendimentos, no geral, as mulheres se calam sobre a violência de gênero, ao mesmo tempo em que intensificam a procura por serviços de saúde, sendo estereotipadas como “poliqueixosas”. Arquétipo que, além de prejudicar as estratégias de tratamento, é também uma forma de violência institucional contra mulheres, que muitas vezes enfrentam o estigma no próprio processo de tratamento. Para cuidar da saúde mental das mulheres, não podemos pensar soluções únicas, que tratem da mesma forma sofrimentos que têm atravessamentos diferentes, precisamos criar processos adequados e propor abordagens específicas para cada público para promover a cultura de promoção e prevenção em saúde mental. Algumas diretrizes para políticas públicas: 5. Lacunas em pesquisa: Mesmo que a saúde mental represente cerca de um terço da carga global de doenças, os investimentos em pesquisa sobre saúde mental ainda representam muito pouco do valor total investido em saúde. No período de 2002 a 2020 foram financiados 6.461 projetos de pesquisa em saúde, totalizando um investimento de R$1,4 bilhão. Já para a saúde mental, especificamente, no mesmo período houve o financiamento de apenas 249 projetos com R$27 milhões, menos de 2% do total investido na área. Ao longo do projeto Caminhos em Saúde Mental, foram selecionadas e categorizadas 196 publicações de maior interesse para a saúde mental de adolescentes e mulheres. Para a categorização das publicações, a primeira característica considerada foi justamente a de público-alvo, sendo definidas quatro possibilidades: adolescentes, mulheres, outros grupos específicos e população em geral. A segunda característica está relacionada ao próprio conteúdo, sendo definidos cinco tipos: Diagnósticos, panoramas e tendências: Publicações que apoiem a construção de diagnósticos (individuais, locais, nacionais e globais), apresentem panoramas ou discutam tendências sociais no campo da saúde mental; Intervenções: publicações que indicam O QUE deve/pode ser feito no campo da saúde mental, porém sem discutir efetividade de intervenções; Efetividade de Intervenções: publicações que indicam O QUE deve/pode ser feito no campo da saúde mental e cujo foco seja discutir efetividade das intervenções; Implementação: publicações que indicam COMO colocar em prática determinadas intervenções no campo da saúde mental; Reflexão Teórica/Conceitual: publicações que apoiem o entendimento de CONCEITOS importantes no campo da saúde mental, podendo apresentar também teorias. Mapa de evidências: Os números em cada célula indicam o número de publicações que se encaixam na categoria indicada. Por exemplo, para o grupo de mulheres, há 10 publicações produzidas no Brasil que ofereciam uma reflexão teórica ou conceitual e 9 publicações internacionais que discutiam a efetividade de intervenções, e assim por diante. Vale ressaltar que, como algumas publicações apresentam mais de um tipo de conteúdo, elas podem ser contadas mais de uma vez ao longo de uma mesma linha (ou público-alvo). Nas colunas da direita, que apresentam os números totais, evitou-se a dupla contagem. 6. Lacunas de tratamento: Em todo o mundo há uma grande lacuna nos cuidados em saúde mental, seja devido às baixas taxas de detecção ou à priorização dada a estes. Mesmo em países de alta renda, quase 50% das pessoas com depressão não recebem tratamento e apenas uma em cada cinco receberam tratamento minimamente adequado para transtorno depressivo grave. Para países de baixa e média renda, apenas uma em cada 27 pessoas receberam tratamento minimamente adequado. No ano de 2014, a média de falta de tratamento na Região das Américas e na América Latina e Caribe era de 73% para transtornos afetivos graves (como o transtorno bipolar), de ansiedade e por consumo de substâncias em adultos, 56,9% para esquizofrenia, 73,9% para depressão e 85,1% para uso de álcool (OPAS, 2014). Aproximadamente 80% dos casos de adoecimentos mentais não são diagnosticados ou tratados adequadamente e, por isso, muitos dos quadros que poderiam ser prevenidos ou recebido intervenções precocemente se agravam e afetam não só o indivíduo, mas todo o seu entorno. Pessoas em sofrimento psíquico em situação de vulnerabilidade têm desafios financeiros e de acesso ao serviço de saúde, sendo sujeitas à discriminação e estigmatização, que tem como consequências: redução da procura por atendimento; desconhecimento sobre sua condição e o tratamento apropriado; decisão entre ficar sem tratamento ou cortar despesas pessoais em outras áreas para receber tratamento prestado por provedores privados, visto que transtornos mentais são frequentemente excluídos de pacotes essenciais de cuidados ou seguros. 7. Fatores de risco e determinantes sociais: Saúde mental não é apenas uma dimensão individual, dependente de fatores biológicos e psíquicos, é também resultado da complexa interação entre aspectos individuais e as condições de vida das pessoas. Por isso é fundamental trabalhar essa pauta em interface com outras agendas sociais, considerando as interseccionalidades do tema. O direito à alimentação saudável e adequada, à moradia, saneamento básico, trabalho, educação, transporte, lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais são fatores determinantes para a efetivação do direito à saúde mental. O aumento da exposição a fatores de risco resultou em um aumento de 30% na prevalência global de condições de saúde mental desde 1990. Embora a depressão possa afetar pessoas de todas as idades, o risco de ficar deprimido é aumentado pela pobreza, desemprego, eventos da vida como a morte de um ente querido ou um rompimento de relacionamento, doenças físicas e problemas causados pelo uso prejudicial de álcool e outras drogas. Violações dos direitos humanos como exploração, violência, abuso, discriminação, condições de vida desfavorável ou falta de acesso à proteção social têm enorme impacto negativo na saúde mental. Ainda assim, as pessoas com desabilidades psicossociais são frequentemente marginalizadas e sujeitas a abusos físicos, sexuais, emocionais e negligência, sendo privadas de tomar decisões por si, sobre seu tratamento, assuntos pessoais, financeiros e até sobre onde morar, impedidas assim de participar plenamente da vida social e comunitária. 8. RAPS e CAPS: A RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) é responsável por garantir o cuidado transversal das demandas de saúde mental da população, articulando com as demais redes do território. É composta por serviços e equipamentos variados no âmbito do SUS. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços estratégicos e principais articuladores da RAPS e variam de acordo com o porte dos municípios. Nos grandes municípios e regiões de saúde acima de 200 mil habitantes, são previstos CAPS de funcionamento 24h, como os CAPS III voltados para pessoas com sofrimento mental em geral, e os CAPS ad III, destinados principalmente para pessoas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Os CAPSi são direcionados para o público infantojuvenil e podem ser implantados em municípios e regiões a partir de 70 mil habitantes. Para os municípios de médio porte (a partir de 70 mil habitantes), há os CAPS II e CAPS ad, e para os de pequeno porte (a partir de 15 mil habitantes), os CAPS I. Mais recentemente, a esta tipificação foi acrescentado o CAPS ad IV, para municípios com população acima de 500 mil habitantes ou nas capitais de estados. Os CAPS funcionam com “portas abertas”, ou seja, qualquer pessoa pode ser recebida e avaliada pela equipe de saúde presente, sem a necessidade de um encaminhamento ou agendamento prévio. O cuidado é realizado por meio de uma avaliação inicial, seguida da construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) para cada usuário, seja nos processos de reabilitação psicossocial ou nas situações de crise. As ações de cuidado são diversificadas, realizadas em grupo, individualmente, com a família ou na comunidade, articulando recursos do território, nos campos do trabalho e economia solidária, habitação, educação, cultura e saúde. Dados de 2013 do Ministério da Saúde apontavam a existência de um mapeamento de 1.008 iniciativas de geração de trabalho e renda espalhados pelo país, sendo 177 delas no estado de São Paulo. Caminhos em Saúde Mental O documento orientador Promovendo Saúde Mental, elaborado pela OMS para superar as barreiras nesse campo, apresenta tanto estratégias gerais como específicas para países de baixa renda. Já o Plano de Ação de Saúde Mental de 2013, também da OMS, apresenta propostas a serem realizadas por governos e por parceiros internacionais e nacionais da sociedade civil – organizações de pessoas com desabilidades psicossociais, usuários de serviços, familiares, cuidadores, profissionais de saúde, prestadores de serviço, organizações de saúde mental, ONGs de base comunitária de direitos humanos e redes de desenvolvimento e saúde mental. Algumas possibilidades de atuação para as organizações não-governamentais, sugeridas pela OMS: Combater a exclusão social e aprimorar o apoio da comunidade. Apoiar os programas existentes ou estabelecer novos programas para que as pessoas com transtornos mentais tenham: oportunidades de educação continuada, desenvolvimento de habilidades, apoio em encontrar trabalho adequado e fornecimento de suporte no trabalho. Explorar meios para fornecer apoio financeiro e moradia acessível e segura para pessoas com transtornos mentais graves. Aumentar o acesso aos cuidados na comunidade por meio de programas de apoio entre pares e de apoio à família. Iniciar atividades de redução de estigma, como as que se concentram em melhorar o contato social e a participação na vida profissional, comunitária e em assuntos cívicos. A partir de diferentes documentos de organizações internacionais, as estratégias de atuação foram agrupadas em categorias amplas, levando à identificação de sete tipos diferentes: >> Para conhecer mais detalhes de cada uma dessas categorias de atuação, baixe o levantamento Caminhos em Saúde Mental e confira o capítulo 4 (Estratégias de atuação em saúde mental).

Não dá mais pra fugir do assunto: saúde mental é uma questão de saúde pública que entrou em pauta de forma ainda mais irreversível e em caráter de urgência devido à crise desencadeada pelas medidas de isolamento. As taxas de ansiedade, depressão, insônia, síndromes de esgotamento mental e outros sintomas de sofrimentos psíquicos aumentaram drasticamente e a saúde mental virou assunto cada vez mais comum. Com isso, aumentou também a busca por informações sobre formas de prevenção e de cuidados para os sofrimentos psíquicos e muita gente aproveitou esse boom para vender serviços e produtos relacionados à saúde mental e bem-estar. O problema é que vivemos, além da pandemia de Covid-19, uma pandemia de desinformação no Brasil, e nem todos os conteúdos veiculados sobre o assunto são confiáveis e de qualidade. Muitas vezes, as abordagens trazem,fake news e recaem em uma “positividade tóxica”, quando rejeitamos sentimentos e emoções consideradas negativas, como se os adoecimentos mentais fossem uma questão de “força de vontade”. E ainda tem os efeitos específicos da infodemia, caracterizada pelo excesso de informações, nem sempre verdadeiras, que tornam difícil encontrar fontes seguras e orientações confiáveis sobre um tema. Essa avalanche de informações, acompanhada pelo interesse crescente por assuntos específicos, como é o caso da saúde mental, pode afetar nossa saúde mental coletiva e prejudica ações preventivas, dedicadas a combater estigmas e tabus relacionados ao tema. Mas também afeta nossa saúde mental individual, já que com esse excesso de informações ficamos mais ansiosas, deprimidas, sobrecarregadas, emocionalmente exaustas e com dificuldades de encontrar informações confiáveis e de qualidade. Por isso é fundamental democratizar o debate sobre saúde mental, assunto que já ocupa, ainda que silenciosamente, nossa vida em casa, no trabalho, nas relações sociais e na internet. Precisamos acompanhar e reverberar as vozes qualificadas que já estão falando sobre saúde mental e atuando em diversas áreas, afinal, saúde mental não é assunto exclusivo de profissionais da saúde. Por isso, para te ajudar a ter acesso à informações fundamentadas e confiáveis sobre saúde mental, elencamos 9 perfis para você seguir nas redes sociais e ficar por dentro desse assunto de forma qualificada. Confira: 1 - Christian Dunker: @chrisdunker no Instagram, no Twitter e no Facebook, Christian Dunker no Linkedin e canal no Youtube Psicanalista, professor do Instituto de Psicologia da USP, e livre docente em Psicologia Clínica, Christian Dunker é membro da Escola de Psicanálise do Fórum do Campo Lacaniano e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Colabora com o Instituto Itaú Cultural, em seu Curso de Formação em Gestão Cultural, e já foi vencedor do prêmio Jabuti por seu trabalho como escritor dos livros “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica” e “Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma”. Além do trabalho clínico e acadêmico, Christian é conselheiro consultivo do Instituto Cactus e atua como comunicador em diversas mídias, ministra cursos presenciais e online e realiza palestras por todo Brasil. Em seus conteúdos e formações, ele fala sobre saúde mental, psicanálise, filosofia, relações sociais e política. 2 - Cecília Dassi: @cecilia.dassi no Instagram, @ceciliadassipsi no Facebook, @ceciliadoficial no Twitter e Cecília Dassi no YouTube Atriz desde os 4 anos, Cecília Dassi abandonou a carreira para se dedicar à psicologia. Se formou em arteterapia e hoje atua atendendo crianças, adolescentes, adultos e casais em seu consultório e realiza um trabalho terapêutico com artistas infantis e suas famílias, além de palestrar sobre o tema. Nas redes, aborda temas como saúde mental, depressão e ansiedade e constrói um espaço seguro para falar sobre esses assuntos com seus seguidores. A proposta de Cecília é quebrar o estereótipo sobre psicologia e abordá-la de maneira leve, para que chegue a todas as pessoas. 3 - André Carvalho: @carvalhando no Instagram, @andrecarvalhal no Twitter e newsletter Jornalista e publicitário, André Carvalho é especialista em design para sustentabilidade e atua como palestrante, professor de cursos de extensão e pós-graduação em marketing e consultor de grandes empresas. É também escritor e colunista em veículos de comunicação, além de autor dos bestsellers “A Moda Imita a Vida – Como construir uma marca de moda” e “Moda com Propósito - Manifesto pela grande virada”, do finalista do Prêmio Jabuti 2019 “Viva o Fim – Almanaque de um novo mundo” e o mais recente "Como salvar o futuro: Ações para o presente". Em suas redes, André Carvalho fala sobre marketing, comportamento e sustentabilidade, assuntos que costuma relacionar com saúde mental e formas mais sustentáveis e saudáveis de viver, além de manter uma newsletter informativa aprofundando alguns temas que aborda nas redes. Como apresentador do programa “Se essa roupa fosse minha” do GNT fala sobre consumo e moda consciente e como colunista do “Sem Censura” na TV Brasil comenta política. 4 - João Marques: @joaomarques.psi no Instagram, @joaomarques.psi no TikTok e @joaomarques_psi no Twitter Escritor, pesquisador da psicologia da masculinidade preta e questões raciais e academicista de psicologia, João Marques aborda saúde mental em suas redes com foco em alguns atravessamentos: questões raciais, relacionamentos e masculinidades. No Telegram, mantém o grupo “Masculinidade e Pluralidade” onde compartilha conteúdos complementares dos textos da semana, enquetes e debates, publicados nas em suas redes sociais. Sua produção de conteúdo é orientada para materializar em palavras questões que ou não percebemos ou tomamos como normais em nossa vida cotidiana e propor um diálogo sobre os impactos delas em nossa saúde e relações. 5 - Kerollyn Lopes: @psicologadamulher no Instagram e Psicóloga da Mulher no YouTube Kerollyn Lopes é psicoterapeuta de mulheres. De forma bastante didática e acessível, em suas redes ela divulga aulas online gratuitas toda segunda-feira no YouTube em que fala sobre como desenvolver sua autoestima, ter relacionamentos mais saudáveis e conquistar mais inteligência emocional. No Telegram, mantém uma comunidade para compartilhamento de materiais com exercícios e avisos sobre novos eventos. Em seus conteúdos, Kerollyn divide dicas para identificar características tóxicas, nossas e dos outros, além de traumas familiares, problemas pessoais e estratégias para lidar com essas situações. 6 - Daniel Martins de Barros: @danielmbarros no Instagram e no Twitter, @danielbarrospsiquiatra no Facebook e Daniel Martins de Barros no YouTube Daniel Barros é professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Atua também como escritor e comunicador e é colunista do jornal O Estado de S. Paulo, mantém um blog no portal Estadão, além de ser consultor do programa “Bem Estar”, da Rede Globo. Na Rádio Band News FM, fala sobre a mente e o cérebro no programa de entrevistas “Humanamente” e na coluna “Isso é coisa da sua cabeça”, além de escrever mensalmente sobre ciência e comportamento para a revista Galileu. Em suas redes, Daniel “pensa em voz alta sobre o mundo” e aborda questões como saúde mental, ciência, comportamento e sobre como lidar com diversos tipos de sentimentos e emoções, além de recomendar conteúdos. 7 - Vera Iaconelli: @vera.iaconelli no Instagram e @VeraIaconelli no Twitter Vera Iaconelli é psicanalista, doutora em Psicologia pela USP e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise. Como escritora, assina os livros “O Mal-estar na Maternidade” e "Criar Filhos no Século XXI" e também atua como colunista do jornal Folha de S. Paulo. Em suas redes, Vera fala sobre saúde mental, com olhar especial para mulheres maduras, e sobre relações entre pais, mães e filhos, infância, o impacto do isolamento social, lidar com o sofrimento, posicionar-se diante do mundo digital, estabelecer limites e ajudar nas escolhas e o papel dos cuidadores em nossa sociedade. 8 - Contente.vc: @contente.vc no Instagram e no Facebook e Contente no LinkedIn Contente.vc é a primeira plataforma de conteúdo e mídia para uma vida digital mais consciente, um projeto de Luiza Voll e Daniela Arrais. A primeira publicitária e a segunda jornalista, ambas são empreendedoras e se conheceram na internet, espaço que decidiram “atacar”, pois é preciso promover conexões mais genuínas também por meio das telas. A Contente se divide em três áreas de atuação: a “plataforma de conexão com você, com o outro e com o mundo” @instamission, a construção coletiva do projeto #ainternetqueagentequer, e ainda um segmento para empresas que atua com diversas marcas, eventos e projetos. Com muita sensibilidade e bastante descontração, a Contente costuma falar sobre como o digital tem moldado nossas relações e questionado para onde vai o nosso foco e nosso tempo quando vivemos os modelos de negócio da economia da atenção. “Não é sobre sair da internet. É sobre valorizar o seu tempo e usá-lo com mais intenção e qualidade”. 9 - Instituto Cactus: @institutocactus no Instagram e no Facebook, @CactusInstituto no Twitter e Instituto Cactus no Linkedin e no YouTube O Instituto Cactus é uma organização sem fins lucrativos que apoia iniciativas e projetos que proporcionem, por meio dos cuidados em saúde mental, a melhora na qualidade de vida de todas as pessoas, olhando especialmente para adolescentes e mulheres em situação de vulnerabilidade. Em suas redes, o Instituto compartilha conteúdos autorais e de outras organizações e veículos de comunicação sobre saúde mental para ampliar e aprofundar esse debate no Brasil, sempre de forma simplificada e humanizada com o objetivo de disseminar diferentes práticas de cuidado e também de desestagnar o tema.

Dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Dia emblemático para abordarmos a saúde mental com esse recorte necessário. Hora de arregaçar as mangas e abraçar a causa da saúde mental da mulher. Tema tão falado nesse 2020 turbulento e, em 2021, é chegada a hora de nomeá-lo de fato. Uma enxurrada de notícias constatando que durante a pandemia a mulher foi mais afetada. Acúmulo de papéis, de trabalho, família, empregos formais e informais não sustentáveis. E por que a questão de gênero? E o que isso quer dizer? A OMS define gênero como “a diferença, que homens e mulheres têm sobre o poder e controle das determinantes sócio-econômicas em suas vidas, posição social e forma de tratamento na sociedade”. Ou seja, dado o olhar diferente que a sociedade dá ao homem e à mulher, são também diferentes, as suscetibilidades e exposições a riscos específicos de cada um no contexto da saúde mental, por conta de diferentes processos biológicos, relações sociais e papeis de gênero. Como se não bastasse, o viés de diagnóstico dado a cada um deles também é tendencioso. Alguns dados que evidenciam isso, são os de que a depressão, um dos transtornos mentais mais comuns da nossa sociedade, afeta 2 vezes mais a mulher do que o homem. As tentativas de suicídio, por sua vez, são 2.2x mais frequentes nas mulheres. E quando se trata de papeis sociais, tem-se que 1 a cada 5 mulheres apresentam transtornos mentais comuns (TMC) ao passo que esse número é de 1 a cada 2 mulheres para aquelas com alta sobrecarga doméstica. Isso sem mencionar as inúmeras sequelas na saúde mental causadas às vítimas de violência, seja psicológica, física, sexual ou institucional, resultado de práticas sociais que não tratam os genêros com um olhar de equidade. Estes dados nos revelam que um olhar diferenciado para a saúde mental da mulher se faz necessário para além do foco em quadros de origem biológica como a gestação, aborto, puerpério e menopausa. Infelizmente lidamos com uma subnotificação dos casos no país. Ainda mais se pensarmos no contexto psicossocial atual. No que tange à saúde mental, a efetividade do tratamento individual, terapêutico e/ou medicamentoso, institucional ou não, deve ser pautado no contexto social no qual a mulher está inserida, o papel de gênero que ela desempenha e o quanto a sociedade contribui à sua saúde. É importante e urgente falarmos desse assunto. Não há transformação social sem as mulheres, que são verdadeiros vetores de mudança para a sociedade, como líderes dessa e das próximas gerações, educadoras (com 80% do contigente de professores da educação básica sendo mulheres), profissionais da saúde (representando 65% dos profissionais da saúde pública e privada), mães e figuras presentes em tantas outras esferas sociais. É preciso nomear, definir, significar e discutir cada vez mais o assunto para que a saúde mental possa ser tratada como uma questão que permeia o nosso universo o tempo todo e não como uma condição à parte. Por Livia Miranda, em colaboração com o Instituto Cactus

2020 foi um ano de mudanças e desafios, com muitas novidades e adaptações. A folha do calendário virou, um novo ano se inicia e podemos pensar nesse momento como uma chance de reflexão, uma oportunidade de autoconhecimento e autocuidado. Quando um ano termina e um novo começa, fazemos uma análise do que aconteceu e das nossas perspectivas para o futuro. Olhar para o passado, enxergar as conquistas e comemorá-las pode ser um ótimo jeito de dar início a uma nova caminhada, mas nem sempre é fácil. Seja gentil consigo mesmo e tudo bem se for necessário dar uma pausa e tirar um momento para si mesmo. A saúde mental não está só no olhar positivo para tudo, mas no acolhimento de todas as emoções, sejam elas boas ou ruins. O que você deseja para esse novo ano? Começar algo novo? Dar um primeiro passo para algum projeto? Pensar no que queremos é um importante exercício de reflexão e planos podem ser bons guias para nos ajudarem a caminhar na direção desejada - desde que feitos com calma e ponderação, para que não sejam geradores adicionais de ansiedade. Trace seus objetivos, alguns deles. Perceba porque eles importam para você, o que eles poderão agregar para sua jornada. Então comece com metas possíveis, mais fáceis; identifique quais passos são necessários para alcançar as grandes e mais difíceis realizações. Lembre-se: a linha de chegada é feita de pequenos passos, e é importante saber cultivar a jornada e celebrar as pequenas vitórias. Ainda estamos vivendo um momento desafiador de pandemia, muitos sonhos e objetivos terão que esperar um pouco para se tornarem realidade, mas fortalecer o nosso autocuidado, saber ter auto-compaixão e desenvolver resiliência são importantes ferramentas para mantermos a saúde da nossa mente, aprendermos a lidar com as adversidades da vida e aumentarmos nosso bem-estar. Algumas práticas podem colaborar com uma vida mais leve e uma saúde equilibrada para viver e celebrar o ano que chega com mais plenitude: cultivar os relacionamentos, se permitir momentos de presença, fazer mais coisas que lhe dão prazer, ajudar o próximo, se conectar mais com seus pensamentos, emoções e com a nossa natureza humana, e saber apreciar a alegria, mas também a dor. Vamos olhar para o ano que acabou com carinho, compaixão e gratidão onde couber, e pensar no que queremos para o futuro. Como podemos fazer o nosso mundo de dentro melhor, através de nossas práticas e escolhas?

Iniciativa da Casa de Marias e do Instituto Cactus tem como objetivo realizar o acolhimento de mulheres negras, indígenas e/ou periféricas em situação de vulnerabilidade, chamar a atenção para a demanda urgente de se olhar a saúde mental de mulheres e para possibilitar novas práticas de cuidado em saúde mental Para contribuir com o movimento de transformação do cenário da saúde mental do país, nós, do Instituto Cactus, estamos apoiando financeiramente um projeto de atendimento psicológico para mulheres negras, indígenas e/ou periféricas de todo Brasil através da Casa de Marias, organização de escuta e acolhimento. De agosto a janeiro de 2022, a equipe da Casa de Marias vai acolher, de forma completamente gratuita, até 288 mulheres maiores de 18 anos nos serviços de atendimento psicológico por meio de canais e/ou ferramentas adequadas para cada mulher atendida. O público alvo do projeto são mulheres negras, indígenas e/ou periféricas de todo o Brasil e será conduzido pelas profissionais da Casa de Marias, coordenada por um grupo de mulheres negras que atuam com olhar especial para as questões que envolvem classe, gênero, raça e território nas práticas de cuidado oferecidas. As vagas são ofertadas em duas modalidades: os grupos de acolhimento emergenciais e os plantões de emergência, sendo disponibilizadas 40 vagas por mês nos grupos de acolhimento emergenciais abertos, com 1 encontro semanal com 10 vagas por semana, e até 8 vagas por mês de plantão psicológico ou triagem emergencial, realizando de 1 a 2 atendimentos por semana. A primeira modalidade, o plantão psicológico para mulheres em situação de vulnerabilidade, é importante para acolher e compreender demandas pontuais e emergenciais. O plantão, nessa estruturação de serviço, funcionará como uma porta de entrada para outras modalidades de atendimento, com encaminhamentos para o trabalho terapêutico individual ou de grupo, quando necessário. Já os grupos abertos de acolhimento emergencial, a segunda modalidade do projeto, uma equipe de três profissionais (duas psicoterapeutas e uma supervisora) irá conduzir um grupo rotativo de acolhimento, com frequência semanal, com no máximo dez participantes. Este grupo será constantemente aberto e poderia acolher diversos perfis diferentes de pacientes, e permite maior flexibilidade de adesão e continuidade por parte das mulheres atendidas. A pandemia da Covid-19 afetou de forma mais significativa as mulheres, principalmente pela alta sobrecarga doméstica enfrentada, já que, muitas vezes, as mulheres têm que trabalhar de casa e se responsabilizar pelos filhos e pelas demandas domésticas. A situação de confinamento também agravou as violências sofridas pelas mulheres dentro de casa, com agressor e agredido tendo que dividir o mesmo ambiente, e uma diminuição das redes de apoio neste momento de pandemia. Para enfrentar esse contexto, não podemos lançar mão de estratégias gerais de cuidado, que não levem em conta as especificidades dessas mulheres, precisamos de olhares específicos e abordagens adequadas para criar soluções que dialoguem com os atravessamentos da saúde mental de cada público. O acolhimento das mulheres com questões de saúde mental é uma demanda antiga e requer um olhar ampliado para questões físicas, psicológicas e sociais relacionadas ao gênero. Transtornos alimentares, transtornos mentais associados à gestação, ao aborto, ao puerpério e à menopausa, inclusive como sequelas de violência médica e obstétrica, por exemplo, são adoecimentos que são diretamente atravessados pelo recorte de gênero. Ou seja, os papéis sociais atribuídos às mulheres são fatores determinantes para a prevalência de sofrimentos psíquicos neste público, por isso precisamos acolher mulheres com olhares específicos. Por isso, fizemos um mapeamento de diversas instituições no município de São Paulo com atuação focada em mulheres e, a partir de pesquisas e conversas para entender melhor as estratégias de cada um, decidimos estabelecer uma parceria com a Casa de Marias devido a sua experiência em acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade. Também valorizamos a possibilidade de oferecer modalidades de escuta inovadoras para o momento emergencial para expandir as oportunidades de cuidado, acolhimento e escuta das mulheres, em formatos diferentes dos que são oferecidos tradicionalmente e, frequentemente, a custos inacessíveis. INSCRIÇÕES Para se inscrever no plantão psicológico entre em contato através do Whatsapp para fazer a inscrição, e verifique a disponibilidade para atendimento em até 24h. As vagas são abertas de acordo com a disponibilidade de agendamento. Para se inscrever no grupo de acolhimento emergencial aberto entre em contato através do mesmo canal e verifique a disponibilidade de vagas para o próximo encontro, no dia 1 de agosto. As vagas para o grupo reabrem toda segunda-feira e permanecem abertas até uma hora antes do encontro, na quarta-feira. SOBRE A CASA DE MARIAS A Casa de Marias é um espaço de escuta e acolhimento. Lugar pensado em cada detalhe para receber pessoas que, por qualquer motivo, precisam de cuidado psicológico. A equipe é composta por profissionais de diversas abordagens teóricas e que oferecem serviços de psicoterapia individual, psicoterapia grupal, terapia para casais e famílias, cuidado psicológico voltado para crianças, adolescentes, adultos e idosos, oficinas temáticas, grupos terapêuticos, cursos de formação, grupo de estudos, supervisão clínica individual e grupal, consultorias, rodas de conversa, etc. O projeto é coordenado por quatro psicólogas. O grupo de acolhimento emergencial será liderado pela psicóloga Camila Generoso (CRP 06/82630). Psicóloga e psicopedagoga, possui especialização em Desenvolvimento Infantil e aprimoramento em Psicanálise da Criança pela PUC-SP; e pela psicóloga Deisy Pessoa (CRP 06/157161), graduada em Psicologia com ênfase Clínica e Saúde Pública, com atuação na Atenção Psicossocial, trabalhando com a comunidade local do Capão Redondo em ações de inclusão de diversidades nas atividades artísticas terapêuticas oferecidas pelo CECCO. O plantão psicológico é liderado pela psicóloga Eneida de Paula (CRP 06/135390), psicóloga formada pela FMU, com especialização em Psicologia e Relações Raciais – Instituto AMMA Psique e Negritude e em Técnica de Estresse Pós-Traumático segundo Modelo Francine Shapiro – EMDR; e pela psicóloga Lucila Xavier (CRP 06/141984), psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência de 5 anos como Acompanhante Terapêutica de crianças e adolescentes com TEA e estágios nas áreas de psicologia jurídica e clínica. Atualmente em formação no curso teórico vivencial de Psicologia e Relações Raciais do Instituto AMMA.

A discussão sobre o Clubhouse, e sobre redes sociais de forma geral, toca profundamente o tema da saúde mental, já que o ambiente virtual é, cada vez mais, um dos ambientes mais relevantes para trocas de ideias e experiências, expressão de sentimentos, e até mesmo de definição de identidade. Já parou para pensar quanto tempo você tem passado nas redes? Achamos importante trazer este tema para discussão. Como sempre, gostamos de defender a informação e a reflexão sobre temas tão essenciais, para nos dar a capacidade de refletir sobre nossas escolhas e decisões. Vale dizer que aqui, não queremos banir ou restringir o uso das redes sociais e nem do Clubhouse. O intuito é olhar para o tema sob a ótica de “fator de proteção”, ou seja, entender de que forma podemos fazer disso um aliado, já que faz parte da nossa vida. O que é Clubhouse, exatamente? E o que isso tem a ver com a saúde da minha mente? O Clubhouse é uma nova rede social, na qual os usuários podem entrar exclusivamente via convite de quem já faz parte da plataforma. As conversas e trocas se dão em torno de temas de interesse, com mais aprofundamento das discussões ao se trocar mensagens via áudio, e não escrita. Outra característica da rede é que as conversas são imediatamente apagadas após a interação, em uma tentativa de simular a vida real, em que, de fato, nossas trocas presenciais não ficam registradas. A nosso ver, toda a movimentação e atenção que vem sendo dada ao Clubhouse pode ser também um reflexo do quanto nossa sociedade está buscando um espaço mais profundo de fala e escuta, para além de posts superficiais que não necessariamente geram engajamentos e discussões profundas sobre temas. As trocas, no caso da Clubhouse, aconteceriam de forma mais fluída, e com menos ruídos de comunicação. Este movimento pode refletir também, uma vontade da sociedade de ter um espaço para trocas que seja mais fiel ao da vida real, com menos “filtros”, mais profundidade e tempo de escuta. Por esses e outros motivos, a experiência desta e outras redes sociais pode, sim, ser positiva do ponto de vista de gerar conexão, permitir trocas e escuta ativa, e criar comunidades de apoio. No entanto, temos que tomar cuidado sobre alguns pontos. Há ainda um desafio enorme dessa rede conseguir efetivamente gerar pertencimento, inclusão e acolhimento. De um lado, por nascer ainda exclusiva, em que só podem fazer parte aqueles que têm convite, deixamos de lado muitas vozes e pessoas que deveriam fazer parte de trocas relevantes, além de podermos nos sentir menos pertencentes e mais ansiosos por não termos recebido “o tal convite” . Outro ponto sobre inclusão, é o fato da interação acontecer via áudios, o que acaba excluindo parte importante da população, como aqueles com deficiência auditiva, por exemplo. Como a rede hoje ainda não tem regras claras para a moderação de conteúdo, corre-se o risco de se tornar mais um espaço para discursos de ódio e outros tipos de abuso. Por fim, por mais que tenhamos avançado nas tecnologias de inteligência artificial, aplicativos de rede social ainda pecam ao tentar se assemelhar à vida real, com seus altos e baixos, prazeres e sofrimentos. Quando nos focarmos demais no viver “online”, podemos nos desconectar da nossa experiência humana que nos leva a um crescimento e desevolvimento. Essas são apenas algumas das nossa considerações sobre a Clubhouse. A nossa provocação é a de refletirmos sobre o que estamos intencionalmente nos propondo a fazer com o uso dessa e de outras redes sociais e qual a forma de engajamento que nos trará mais bem-estar e nos permitirá trazer mais pessoas conosco. E você, já parou para pensar em como se engaja nas redes sociais e como faria (ou está fazendo) isso na Clubhouse, se pudesse parar para pensar?

Mudam as paisagens, os cenários, os endereços, mas em qualquer lugar do planeta somos todos seres humanos com sentimentos, dores, pensamentos, alegrias e aflições. Homens e mulheres, pobres ou ricos, adultos ou crianças, estão sujeitos a sofrer e desenvolver quadros ligados a saúde mental. De acordo com uma pesquisa da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre 40 e 50% das pessoas dos países membros da organização experimentará algum transtorno mental leve a moderado ao longo da vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), de 10 a 20% das crianças e adolescentes de todo o mundo sofrem de algum problema relacionado à saúde mental. Saúde mental é um assunto global, todos estamos sujeitos a precisar de suporte pois os fatores que influenciam nosso quadro emocional são inúmeros. Características biológicas, ambientais, culturais e econômicas têm influência e relevância na análise de cada caso. Até circunstâncias menos graves como as baixas temperaturas e o pouco sol, em locais com inverno muito rigoroso, diminuem a vitamina D e a melatonina (um hormônio regulatório) e podem gerar indisposição e influenciar quadros depressivos. Fatores como pobreza, desemprego, doenças físicas ou perda de entes queridos são também críticos. Igualmente tão preocupante se fazem as violações de direitos como violência, abuso e descriminação. Como reflexo da ausência de cuidado à saúde mental, há comprometimento no desenvolvimento e na educação das crianças e adolescentes, com a possibilidade de extensão dos quadros na vida adulta, quando não tratados de forma correta. Por isso é tão importante a prevenção! Sem ela, podem surgir dificuldades na convivência e manutenção da estrutura e harmonia da família, do trabalho e das relações estabelecidas com a sociedade. Além das dificuldades pessoais de cada um que convive com a saúde mental debilitada, existem reflexos que permeiam até a economia, com valores na casa dos trilhões em perdas mundiais. Imagem: Gordon Johnson No atual cenário de pandemia, com a necessidade de distanciamento e isolamento social, toda a população mundial convive com sentimentos como tristeza, solidão, medo e luto. Pelo estudo, o registro de doenças e desequilíbrios mentais são ainda muito recentes na história da medicina e da saúde pública, tendo a saúde mental uma baixa prioridade nas agendas da maioria dos países. A esse problema, soma-se a falta de profissionais capacitados para detectar e diagnosticar pacientes de forma correta. Vale lembrar que é humano se sentir só, sentir dor, precisar de cuidados. Estamos vivendo um momento intenso, de muitas emoções e pode ser difícil lidar com os sentimentos que aparecem. Se permita o sentir, o ser e o estar. Mas não deixe nunca de procurar ajuda profissional e suporte das pessoas próximas quando reconhecer a existência de qualquer problema.

Imagem de Couleur Como você tem trabalhado a sua mente? Quais são as necessidades do seu corpo agora? Cuidamos do nosso corpo diariamente quando nos alimentamos, fazemos exercício físico ou quando ingerimos medicamentos. Quando não, adoecemos. Nosso corpo físico sofre e nossa mente também, o físico e a psique estão intimamente relacionados. Funcionamos como um tripé, sendo o ambiente o terceiro elemento da base. A manutenção do equilíbrio e a qualidade deste conjunto proporciona harmonia corpórea e viabiliza a nossa saúde, tanto física quanto mental. Somos seres interativos, nosso organismo responde a diversas variações; quaisquer alterações socioeconômicas, biológicas e ambientais refletem no nosso corpo e interferem em nossos pensamentos e sentimentos. Muitos são os fatores que influenciam nossa saúde mental, como estresse, medos, ajustes na estrutura familiar ou profissional, violação de direitos, enfermidades, violências, adaptações no estilo de vida. Imagem de Gordon Johnson Saúde completa e plena envolve também os cuidados dos sentimentos e das emoções. Como balanceamos as ideias, identificamos sensações e supervisionamos pensamentos são fundamentais para melhor reagir às situações adversas e é isso o que determina a qualificação positiva da nossa saúde mental. Promover, prevenir e recuperar a saúde da mente é tão importante quanto cuidar de um coração saudável e forte, de um machucado na pele ou de uma gripe. Há ainda muitas barreiras, preconceitos e confrontos a serem vencidos. Falar sobre o tema saúde mental e tratar dele é desafiador, mas necessário. Vamos enfrentar juntos este desafio?

Projeto piloto de Instituto Cactus em parceria com a Impulso Gov apoia a tomada de decisão com base em evidências na gestão pública na rede de atenção psicossocial da capital sergipana Equipe do CAPS de Aracaju. Foto: acervo pessoal 28 de setembro é Dia Internacional do Acesso Universal à Informação e ainda tem muita gente que não entende a necessidade da data. Afinal, o que tem de tão especial nisso para ter até um dia comemorativo? Fator-chave para a promoção dos direitos humanos, o acesso à informação é essencial para potencializar o melhor uso de recursos públicos, o melhor atendimento na ponta e é uma poderosa ferramenta de mudanças positivas em nossa sociedade. Para ilustrar a importância do acesso à informação com exemplos práticos, vamos apresentar o uso de dados em indicadores na RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) de Aracaju (SE), projeto piloto do Instituto Cactus em parceria com a Impulso Gov. Pioneira no Brasil, o objetivo da intervenção é definir os principais indicadores de serviços de saúde mental públicos para avaliá-los e, posteriormente, aprimorar os serviços de atenção psicossocial do SUS. Ainda no começo da fase de implementação, o projeto já aponta alguns caminhos para a apoiar tomadas de decisão com base em evidências e avançar na otimização dos recursos públicos e também já rendeu frutos positivos para os trabalhadores locais. Após o final da fase de diagnóstico, Chenya Coutinho e Mairla Protazio, gestoras do CAPS de Aracaju, compartilharam os achados do relatório final com os profissionais da Rede, e apenas com esse primeiro passo já conseguiram gerar sentido no trabalho realizado até então. O incômodo causado ao perceberem que os dados não refletem com exatidão a realidade do equipamento engajou os trabalhadores a aperfeiçoar os registros e dedicar mais atenção à produção desses dados. A mudança de postura pode ser atribuída à capacidade das gestoras em tangibilizar a necessidade e importância desse processo no dia a dia de trabalho. Um processo que, até então, era visto como muito burocrático e que dava pouco retorno, passou a ser aprimorado de ponta a ponta porque, finalmente, os profissionais da RAPS viram sentido e utilidade no uso de dados e indicadores. O efeito disso foi “visível nos corpos”, segundo Chenya Coutinho. A construção dessa cultura do uso de dados e indicadores na gestão pública é um pequeno grande passo para potencializar a implementação de políticas públicas e a formulação de metas de cuidado relacionadas à saúde mental. É na percepção dos impactos concretos dessa mudança de postura no cotidiano de seu trabalho que os trabalhadores tornam-se agentes multiplicadores de boas práticas. Como conta Chenya, “a equipe chegou um pouco desconfiada, depois passou por uma indignação ao perceber que os dados não refletem a realidade do nosso território e no final dessa primeira fase do projeto já estão muito mais engajados em relação ao uso de dados”. Outro resultado preliminar do projeto foi o fornecimento de novos computadores para a unidade, por meio de solicitação feita para a Secretaria Municipal de Saúde de Aracaju a partir do próprio entendimento dos trabalhadores de que esse seria um recurso fundamental para aperfeiçoar o trabalho com dados e indicadores. Infelizmente, não é incomum que muitos equipamentos do sistema público de saúde no país ainda tenham fluxo de dados confusos, já que parte dos registros é digitalizada e parte é manuscrita. “Depois disso, nos reunimos com a Secretaria para encaminhar a demanda e já conseguimos os equipamentos. As coisas já estão caminhando a partir dos pequenos passos com o projeto”. A iniciativa representa uma união de esforços entre duas organizações da sociedade civil e a gestão pública para apoiar tomadas de decisão com base em evidências, ou seja, os benefícios são para toda a sociedade e as soluções podem ser adotadas também em outros municípios com estrutura similar ao da RAPS de Aracaju. Como lembrado por Chenya, apesar de ser um território pequeno, a RAPS de Aracaju é bem estruturada e a cidade já foi piloto de muitas experiências, como por exemplo o SAMU. “A RAPS daqui já foi a melhor do país e é destaque entre os municípios brasileiros na proporção de CAPS para cada 100 mil habitantes. O que está sendo feito aqui pode ser espelhado em outros lugares similares.” Fonte: relatório de acompanhamento do projeto, produzido pela Impulso Gov Esse é apenas um exemplo para mostrar como o acesso a essas informações é importante para o aperfeiçoamento do sistema público de atenção psicossocial. Atender a demanda de mais de 150 milhões de usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) que ficam sujeitos à gestão de recursos e serviços realizados pelo poder público, é um esquema altamente complexo. Por isso é de extrema importância que o governo federal e governos estaduais e municipais se dediquem a compreender as especificidades deste campo para direcionarem recursos de forma coordenada e efetiva a fim de garantir ações de prevenção e cuidado às diferentes demandas em todos os territórios do país. Mas, afinal, o que são dados e indicadores? De forma bem geral, dados são elementos que constituem a matéria-prima da informação, representam um ou mais significados que, de forma isolada, não conseguem ainda transmitir uma mensagem clara. Por exemplo, o gênero de um usuário do CAPS, por si só, é um dado que se não for atrelado a outros como idade, renda, histórico médico, território entre outros, não constitui uma informação. “Mapear quem são nossos usuários, em que bairro moram, faixa etária de incidência no sistema, contexto escolar e familiar, entre outros fatores nos ajuda a atuar de forma estratégica”, ressalta Mairla. “Com alguns dados já conseguimos perceber, por exemplo, que temos que trabalhar com adolescentes que sofreram uma interrupção muito grande da vida social, que podem causar comportamentos de risco como automutilação e ideações suicidas e transtornos como crises de pânico e ansiedade.” Para que essas informações ajudem a melhorar a qualidade dos serviços oferecidos, é preciso identificar e visibilizar os pontos problemáticos dos atendimentos por meio de indicadores que nos ajudem a interpretar os dados e compreender as dinâmicas locais, características e necessidades de diferentes territórios. Os indicadores funcionam como sinalizadores da realidade, orientam a tomada de decisões e ajudam a traçar as melhores ações para alcançar os objetivos. Outro exemplo de uso positivo dos dados em Aracaju é a interpretação das gestoras em relação à diferença de gênero em algumas unidades do CAPS. A maior parte das usuárias dos CAPS I, dedicados ao atendimento de pessoas de todas as faixas etárias que apresentam intenso sofrimento psíquico, são mulheres, ao mesmo tempo, a maior parte dos usuários do CAPS AD, unidade que presta atendimento a pessoas com transtornos decorrentes do uso abusivo de álcool e drogas, são homens, informação que também reflete os achados do levantamento Caminhos em Saúde Mental, um relatório inédito sobre os caminhos de atuação em saúde mental no Brasil que publicamos recentemente em parceria com o Instituto Veredas. Essa constatação poderia levar à suposição de que as mulheres usam menos substâncias psicoativas e por isso requerem menor atenção, mas Chenya recorda que é justamente a inadequação dos serviços oferecidos frente às suas necessidades que pode fazer com que sejam menos acessíveis às mulheres. “Se percebemos que tem aumento de incidência de homens em idade produtiva por consumo de álcool e drogas, temos que entender que isso é a consequência, mas a partir do uso de indicadores conseguimos identificar a causa do problema. Vulnerabilidade socioeconômica, desemprego, fome, nesse contexto, são fatores de risco para este grupo”. O uso de dados e indicadores na gestão de saúde pública do país pode apoiar a priorização de determinadas intervenções, a formulação de metas de cuidado relacionadas à saúde mental e a realização de estudos de implementação em diferentes contextos. Pode, por exemplo, ajudar a entender as principais demandas de transtornos mentais que estão em filas de atendimento e que podem se agravar caso não tenham acesso aos serviços rapidamente, informação que apoia diretamente a decisão sobre priorização da fila e sobre ampliação da capacidade do sistema para acelerar o atendimento. Ou seja, o acompanhamento de indicadores poderia apontar, por exemplo, se a maioria das pessoas com algum transtorno deram entrada na RAPS e não continuaram no tratamento, o que pode indicar dificuldades de acompanhamento nos equipamentos e orientar a busca ativa de pessoas que não retornam aos serviços de saúde. Também pode ajudar a entender a trajetória de uma pessoa dentro do sistema. O fluxo do usuário dentro do sistema, quadros de agravamento e quantidades de procedimento, por exemplo, por si só, podem não ser suficientes para responder várias questões de uma pessoa, o cruzamento dessas informações é o que vale ouro. RAPS de Aracaju: tangibilizando a importância do uso de dados e indicadores a ponta da saúde mental Equipe do CAPS de Aracaju. Foto: acervo pessoal A RAPS Aracaju conta com 7 tipos de equipamentos distribuídos nas diferentes regiões do município e possui cerca de 150 profissionais, entre psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, educadores físicos, oficineiros, psicopedagogos, técnicos e auxiliares de enfermagem. O núcleo gestor da RAPS Aracaju, representado por Mairla e Chenya, vem trabalhando para aprimorar o acompanhamento e registro de informações sobre os serviços da Rede, passo que vêem como fundamental para melhorarem o planejamento e a execução das políticas de saúde mental oferecidas. Para isso, vem buscando disseminar, dentre os demais profissionais da rede, o entendimento de que o uso de dados pode servir ao aprimoramento dos serviços prestados e acompanhando majoritariamente indicadores de produção e processo. A multiplicidade de bases, dados e informações e a complexidade dos fluxos de coleta e compartilhamento é um desafio grande para a gestão, já que com vários sistemas e formas de registros diferentes é compreensível que erros aconteçam e dados se percam no meio do caminho. Além disso, a forte percepção de que essas informações não voltem para os profissionais da ponta sempre foram um obstáculo para o melhor uso de dados e indicadores. Para Mairla, esse ponto era uma das grandes angústias da gestão e já está sendo impactado pelo projeto. “Era muito difícil ter acesso a esses dados e agora estamos nos instrumentalizando para saber como acessá-los e traduzi-los para a comunidade. É possível utilizar e comunicar essas informações de forma clara, simples, acessível e utilizá-las para promover mudanças”. Outro grande achado deste processo até o momento, segundo Chenya é a possibilidade de medir eficácia e eficiência na satisfação dos usuários. “A gente tinha consciência que os indicadores utilizados eram só de produção, mas isso não é suficiente para dizer se os serviços ofertados eram bons para os usuários ou não e o projeto deu um salto na perspectiva de poder medir também a qualidade do serviço para o usuário”, afirma. Por que o sistema de saúde ainda não usa dados e indicadores? Já existem alguns indicadores que são acompanhados em gestões de saúde mental, mas não existe ainda um protocolo unificado e informatizado de forma consistente e também há pouco consenso sobre o que é necessário para avaliar resultados e impactos de saúde mental. Isso porque os indicadores existentes focam principalmente em dados de produção, ou seja, na quantidade de atendimentos e procedimentos realizados, mas não privilegiam informações que apoiam diretamente no entendimento sobre qualidade dos serviços e impactos do serviço na vida dos usuários. Esse dissenso precisa ser destacado porque dele consiste o principal desafio em usar dados e indicadores de saúde mental atualmente: mais do que apenas mapear o que foi ou deixou de ser feito para resolver problemas, precisamos construir indicadores que respondam às metas de sucesso que queremos atingir com as práticas de cuidado ofertadas. Além disso, para que esses dados sejam convertidos em informações fáceis, interpretáveis, de qualidade, em tempo hábil para a tomada de decisão, é necessário um processo complexo. É comum que gestores não tenham tempo, recursos ou treinamentos adequados para lidar com dados pessoais de saúde de forma assertiva, processo que tende a se agravar com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Na prática, acaba sendo mais um processo burocrático que não traz informações relevantes para apoiar a tomada de decisões no dia a dia de equipes de saúde e gestores e os dados nem sempre são confiáveis. E, apesar de a coleta de dados já fazer parte do cotidiano de trabalho de alguns serviços e equipamentos de saúde, em geral essas informações são armazenadas em sistemas oficiais de órgãos ou setores específicos e não existe um compartilhamento seguro e uso sistemático por parte da gestão pública. É uma história conhecida: uma pessoa vai a um serviços de saúde mental, como por exemplo o CAPS, profissionais solicitam uma série de informações (às vezes, antes mesmo de começarem o atendimento) e volta pra casa. Na próxima visita, é a mesma coisa, mais uma vez: informa os mesmos dados, conta a mesma história de vida e se queixa das mesmas questões. Isso acontece porque os sistemas de dados são, na maior parte das vezes, insuficientes para garantir a integração destes registros de atendimentos ou cruzar os dados com outros do histórico de registros dos usuários, além de muitas vezes não existir uma cultura e prática de se incorporar esse olhar e essa análise no acompanhamento terapêutico dos usuários. Caminhos para o uso de dados e indicadores em saúde mental O uso sistêmico de dados e indicadores e o estabelecimento de métricas é mais um desafio dentro da grande complexidade que é atuar com saúde mental no Brasil. Como, por exemplo, o poder público pode planejar valores e distribuição de recursos para uma região específica sem saber quais são os principais transtornos que afetam sua população? Como a gestão da RAPS pode decidir sobre a expansão e construção de novas estruturas de atendimento, sobre a contratação de profissionais ou promover ações de prevenção em saúde mental sem entender as especificidades do território e as demandas que não estão sendo atendidas? Como podemos medir a satisfação dos usuários do sistema e o sucesso dos serviços de saúde mental? Mas também podemos vê-los como grandes oportunidades de impactar positivamente a qualidade dos serviços caso bem utilizados na superação desse desafio, auxiliando o desenvolvimento e monitoramento de políticas públicas que atendam às necessidades de cada grupo e elevem os níveis de bem-estar de toda população, garantindo a perspectiva de saúde integral nos atendimentos e o direito ao acesso à saúde. Nesse processo, a parceria entre comunidades acadêmica e científica, poder público e sociedade civil, reunindo esforços e compartilhando informações, é essencial. Para Maria Fernanda Quartiero, diretora presidente do Instituto Cactus, é fundamental capacitar gestores e governantes para coletar, armazenar, compartilhar e interpretar dados de forma ética e segura para ajudar nas tomadas de decisões do dia a dia da gestão. “É importante garantir que os dados sejam analisados e transformados em informações simplificadas e adequadas à realidade dos gestores e, para os profissionais que atuam diretamente na ponta desses serviços, essas informações podem facilitar o entendimento da efetividade das ações de prevenção de doenças e promoção da saúde mental. O envolvimento das equipes pode ajudar a construir consensos na criação de indicadores que permitam avaliar os resultados e impactos dos serviços prestados”. Um exemplo valioso desses impactos, segundo Daniela Krausz, gerente de projetos na Impulso.Gov, é o uso de dados de urgência e emergência em saúde mental como uma intervenção na prevenção de adoecimentos. “O usuário que chega a ser internado por situação de crise na urgência e emergência de saúde mental poderia ter sido cuidado antes se olhássemos para os dados. Se as informações registradas apontam predisposições, comportamentos de risco ou histórico de desistência no sistema, por exemplo, podemos atuar para evitar que ele não chegue a situação de atendimento urgente. Uma ação de redução de danos e também de desafogamento do sistema”. Para as duas organizações responsáveis pelo projeto, esse grande esforço de desenhar um modelo replicável que visibilize informações que podem melhorar a qualidade dos atendimentos através de dados e indicadores deve ser feito de maneira integrada ao dia a dia da gestão e funcionamento dos equipamentos de saúde pública. A exemplo de Aracaju, é preciso envolver as gestões e profissionais em relação ao bom uso das informações, que podem potencializar o uso de recursos públicos e melhorar os atendimentos. O marco do Dia Internacional do Acesso Universal à Informação é importante, mas precisamos nos educar para trabalhar para institucionalizar a importância do acesso à informações de forma contínua e permanente. Assim, conseguiremos criar indicadores, trabalhar dados, definir métricas e avaliar o impacto das estratégias de forma que faça sentido no cotidiano das pessoas que estão nesse sistema: atendidos e cuidadores.

São Paulo, 3 de agosto de 2020, segunda-feira de um Brasil em pandemia: após um longo período gestando uma proposta inovadora, a investidora social Maria Fernanda Resende Quartiero funda o Instituto Cactus, organização que já transforma o futuro da sociedade brasileira por meio da saúde mental. A data do nascimento formal de nossa organização é um marco que merece ser celebrado não apenas pela urgência da proposta ousada de nossa fundadora - ousada não apenas por iniciar nossas atividades em meio ao colapso de uma pandemia global, mas pela aposta em abordar saúde mental, um tema ainda tão estigmatizado e pouco falado. Essa escolha aconteceu ainda no período de gestação dessa ideia, quando Maria Fernanda identificou uma lacuna de investimento social no Brasil. Para ela, toda transformação social tem como base o indivíduo e, então, como seria possível falar do indivíduo sem falar da sua saúde mental? Este debate se tornava ainda mais necessário por sua transversalidade com tantas outras esferas da vida: não podemos negar que a saúde mental está em todos os lugares, mesmo que silenciosamente. O fator de urgência é que esse assunto não pode mais esperar, temos que romper o silêncio e dar a devida atenção: precisamos falar sobre saúde mental. Sabemos que mesmo que o sofrimento seja igual a todas as pessoas, os impactos são diferentes, por isso precisamos considerar os determinantes sociais que atravessam o tema, como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho, transporte, cultura etc. Esses determinantes sociais afetam a forma com que cada um de nós entendemos e lidamos com saúde mental, por isso precisamos atuar com olhares segmentados. Nesse sentido, fizemos outra aposta institucional: começar olhando, especialmente, para a saúde mental de mulheres e adolescentes, públicos ainda negligenciados no campo da saúde mental. Também decidimos que era hora de ser pró-ativo e parar de “apagar incêndios”. Decidimos que era hora de falar sobre prevenção e promoção. Nos nossos primeiros meses de vida nos dedicamos ao que é necessário nessa fase: contato, escuta, observação e busca por referências sobre nosso campo e nossos públicos alvo. Firmamos o corpo do Instituto e começamos a nos virar para todos os lados a fim de entender o que, quem e quem já está atuando em todas as pontas dessa grande área. Conversamos com outras organizações da sociedade civil, pesquisadores, instituições públicas e privadas e diversos mobilizadores do ecossistema da saúde mental no Brasil. Fizemos um levantamento de fôlego, o Caminhos em Saúde Mental, produzido em parceria com o Instituto Veredas para embasar essa decisão e também pavimentar e inspirar o caminho de outros atores engajados no tema da saúde mental. Com o tempo, conseguimos elaborar e manifestar nossas vontades, no que apostamos e o que queremos fazer para alcançar nosso ousado objetivo de instrumentalizar a sociedade para lidar com saúde mental. À medida que entramos em contato com parceiros e entendemos com mais profundidade as complexidades dessa pauta, afinamos nossa compreensão sobre os desafios que nos esperam e também consolidamos nosso encantamento em atuar em uma causa tão poderosa: atuar com saúde mental de mulheres e adolescentes é potencialmente transformador e os benefícios são para toda a sociedade. Nosso processo de descoberta foi apoiado em evidências e sempre partindo da premissa de que erros levam a aprendizados, ou a chamada “mentalidade de crescimento”, uma “herança” da trajetória de Maria Fernanda na filantropia. Sobre os desafios e possíveis erros do futuro, Maria Fernanda é otimista. “Como uma organização pioneira em saúde mental, nem sempre será possível acertar, mas podemos minimizar erros quando reconhecemos pontos fracos e temos humildade de começar novamente, ajustando o que é preciso a partir de avaliações do nosso impacto”. Nos perguntamos quase diariamente, qual é, então, a definição de saúde mental que reflete toda a complexidade e profundidade deste conceito, mas que tenha a simplicidade de se comunicar com todas as pessoas. Evoluímos no conceito de que saúde mental não pode almejar apenas somente o bem-estar e a qualidade de vida, sob o risco de gerarmos uma positividade tóxica e cairmos em uma visão funcionalista e individualista que propaga a ideia de que felicidade é uma escolha individual, algo que “só depende de você”, e faz com que as pessoas estejam sempre em busca de um estado de felicidade inalcançável. Defendemos, hoje, um conceito mais amplo de saúde mental: é a aptidão para estar, ser e conviver que envolve diversos fatores como reconhecer as emoções, poder conviver em comunidade, poder estar consigo e com o outro, seja no bem estar, seja no mal estar - é o “saber estar”. Demos nossos primeiros passos consolidando o conselho consultivo e estruturando nossos primeiros projetos, sempre em parceria com outras organizações porque entendemos que articulação em rede é fundamental. Com a Impulso.Gov, estamos realizando um projeto para definir os principais indicadores de serviços de saúde mental públicos e avaliá-los com o objetivo de apresentar soluções para o serviço da Rede de Atenção Psicossocial do SUS. Com a Casa de Marias, organização de escuta e acolhimento de mulheres, estamos promovendo um projeto de atendimento psicológico emergencial para mulheres em situação de vulnerabilidade. Também somos uma das organizações signatárias da campanha Pilares, iniciativa de alerta para a importância de cuidar da saúde mental dos educadores na volta às aulas. De lá pra cá, a equipe aumentou e começamos a nos mostrar publicamente. Já cedemos várias entrevistas, assinamos artigos, participamos de eventos e começamos a construir nossa narrativa sobre saúde mental em nossos canais oficiais. E então fizemos 1 ano. Nesse tempo, nunca se falou tanto em saúde mental: o assunto virou pauta de notícias do entretenimento até nos jogos olímpicos. A demanda pelo assunto está posta, agora precisamos continuar a mobilizar os atores e recursos necessários debater abertamente e de forma aprofundada para transformar o cenário da saúde mental no Brasil. O desafio é grande, sabemos, mas o Instituto Cactus está preparado para isso, já tivemos a ousadia necessária para começar e temos a vontade, energia e recursos para continuar um processo de amadurecimento institucional que certamente irá impactar a vida de muitas pessoas por meio dos projetos que apoiamos e promovemos. É chegada a hora de apagar as velas, e dar-se um momento de pausa e reflexão intencional sobre essa trajetória, sempre conscientes de onde queremos chegar. Vida longa ao Instituto Cactus!

É sabido que bons hábitos contribuem significativamente para a redução do desenvolvimento de doenças. Pode parecer um caminho mais lógico conectar a ausência de doenças ou enfermidades à saúde, mas há décadas não podemos mais fazer essa restrição, pois tanto a saúde mental como física são conceitos amplos e complexos, e incluem aspectos positivos de qualidade vida e bem-estar, e não somente o estado de não doença. Aqui no Instituto Cactus sempre batemos na tecla da grande quantidade de fatores refletindo na saúde e no bem estar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já inclui a saúde mental como pauta desde 1946, entendendo que tanto emoções quanto o uso de substâncias químicas, alimentação, relações familiares e de trabalho e habilidades psicossociais implicam em variações nos sentimentos, no grau de felicidade, na construção de uma perspectiva de vida. Justamente por tantas influências, falar sobre saúde mental hoje é fazer extensas análises sobre indivíduos e as comunidades onde estão inseridos. A análise clínica de um paciente não pode ser a única ferramenta de avaliação, ela deve ser associada à sua história de vida, ao ambiente físico que frequenta, à religião que pratica, à estrutura familiar, à cultura local e ao momento histórico. Com um trabalho amplo de associação de fundamentos médicos e farmacêuticos, psicológicos, epidemiológicos e até espirituais, os resultados são potencializados. A combinação, no campo da investigação social, é imprescindível, quando é necessário estabelecer importantes recortes com grupos focais: crianças, mulheres, migrantes e outros grupos em vulnerabilidade, como medida de objetividade em ações coletivas. A combinação de conhecimentos compõe descobertas e gera constantes mudanças nos conceitos de saúde mental, os quais são influenciados pelas atualizações e avanços na ciência e nas políticas públicas nacionais e internacionais. Grandes organizações, por exemplo OMS, Unesco e Unicef, atuam para coletar, compilar, organizar e disseminar informações e atualizações. Essas instituições estudam, discutem e traçam metas e tratados para orientar Estados e Nações sobre recursos de saúde mental - como políticas, assistência, recursos humanos e sistemas de informação no mundo. A OMS tem como objetivo o alcance do maior nível de saúde por todas as pessoas do mundo. Embora os conceitos e conhecimentos estejam em constante transformação, temos uma definição de saúde que traz essa visão global: saúde é o estado de completo bem estar físico, mental e social, e possibilidade de materializar habilidades e lidar com o estresse da vida normal. Como vai a sua saúde? Como podemos ser mais saudáveis e transpor essa saúde para nossas comunidades? E como fazer parte desse movimento global?

Com processos segmentados e abordagens específicas para cada público estamos promovendo a cultura de promoção e prevenção em saúde mental Muito tem se falado sobre saúde mental devido aos enormes impactos da pandemia na vida de todos nós. Por maiores que sejam as consequências do isolamento social, para avançar no caminho de soluções para esse adoecimento é necessário reconhecer que esse problema não é, exclusivamente, um efeito da pandemia. Nossa sociedade já demonstrava de sofrimentos psicológicos há muito tempo. Mas, mesmo que o sofrimento seja igual a todas as pessoas, os impactos são diferentes porque quando falamos em saúde mental é preciso considerar os determinantes sociais que atravessam o tema, como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho, transporte, cultura, etc. Atualmente, com a crise sanitária já são mais de 14 milhões de pessoas desempregadas no Brasil e só nos primeiros meses de pandemia, mais da metade desse número eram mulheres. Ao mesmo tempo que mais da metade da população declara que a saúde mental piorou um pouco ou muito no último ano. Nesse cenário, as minorias sociais são particularmente afetadas: mulheres vítimas de violência doméstica, crianças e adolescentes negligenciados, LGBTQIA+ vítimas de homofobia, pessoas negras vítimas de racismo são alguns exemplos de grupos que se tornam mais suscetíveis ao adoecimento mental devido a questões estruturais da nossa sociedade. Por isso é necessário ter olhares segmentados para a saúde mental e priorizar alguns grupos que merecem atenção e cuidado de forma emergencial. Não podemos pensar soluções únicas, que tratem da mesma forma sofrimentos que têm atravessamentos diferentes, precisamos criar processos adequados e propor abordagens específicas para cada público para promover a cultura de promoção e prevenção em saúde mental. Para pessoas em situação de vulnerabilidade, sabemos que se vincular ao processo psicoterapêutico pode ser um desafio, assim apostamos em modalidades que viabilizem o acesso a esses serviços. A crise provocada pela pandemia de Covid-19 agravou muito esse cenário. Com a perda da renda e o aumento da desigualdade de renda e de acesso a serviços, os efeitos da crise socioeconômica na saúde mental são ainda piores para as pessoas em situação de vulnerabilidade. Com o isolamento social, a disparidade de gênero, a violência doméstica e a sobrecarga das mulheres aumentaram ao mesmo tempo em que as redes de suporte diminuíram, uma vez que muitas vítimas ficaram confinadas com seus agressores sem possibilidade de ajuda externa. Todos esses fatores favorecem a prevalência de doenças mentais nas mulheres, por isso precisamos cuidar desse público com ainda mais urgência. O investimento brasileiro em pesquisas e serviços no campo da saúde mental ainda é muito tímido quando comparado a outras áreas do conhecimento. Segundo dados do levantamento Caminhos em Saúde Mental, que lançamos em junho em parceria com o Instituto Veredas, no período de 2002 a 2020 foram financiados 6.461 projetos de pesquisa em saúde, totalizando um investimento de R$1,4 bilhão. Já para a saúde mental, especificamente, no mesmo período houve o financiamento de apenas 249 projetos com R$27 milhões, apenas 1,87% do total investido. Mesmo que a saúde mental represente cerca de um terço da carga global de doenças, os investimentos em pesquisa corresponderam somente a 1,9% do valor total investido em saúde. Como viemos alertando, em termos de investimento social privado, apenas 4% do total de R$2,5 bilhões de investimento social privado no Brasil em 2019 foram destinados à saúde e esporte, bastante abaixo do que seria necessário para intervenções estruturais no campo. Atendimento psicológico para mulheres em situação de vulnerabilidade Para avançar no caminho de investir em projetos e redes de serviços comunitários que viabilizam o acesso de mais pessoas aos atendimentos de saúde mental, propósito que para nós, do Instituto Cactus, pode transformar o cenário da saúde mental do país, estamos financiando um projeto de atendimento psicológico de urgência e emergência para mulheres em parceria com a Casa de Marias, organização de escuta e acolhimento. De agosto a janeiro do ano que vem, 288 mulheres poderão se beneficiar do cuidado, acolhimento, escuta e atendimento psicológico* de uma equipe especializada e de forma completamente gratuita, por duas modalidades principais, o plantão psicológico individual e o grupo de acolhimento emergencial, modalidade ainda pouco explorada como ferramenta de acolhimento para estes contextos. O público alvo do projeto são mulheres negras, indígenas e periféricas de todo o Brasil e o atendimento acontecerá de forma remota, por meio de canais e/ou ferramentas adequadas para cada mulher atendida. Sabemos que focar nesse grupo não é um recorte exaustivo, mas compreendemos que elas têm um enorme potencial de transformação social e também como promotoras da saúde mental em seus trabalhos, núcleos familiares e comunidades, tornando-se multiplicadoras dessa causa. Nossa expectativa com esse projeto é chamar a atenção para a necessidade de se pensar em projetos de saúde mental desse público, realizar o acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade e, ainda, gerar insumos para validar o quanto este tipo de escuta emergencial, principalmente a feita em grupos de apoio em um formato inovador, como uma modalidade que pode ser institucionalizada e replicada em contextos de urgência. A avaliação será feita, principalmente, levando em conta a vasta experiência da Casa de Marias com o acolhimento de mulheres em diferentes modalidades, o que nos permitirá avaliar especificamente os formatos oferecidos em comparação com outros e elaborar uma recomendação de implementação sistematizada para esse tipo de atendimento, seja dentro ou fora de políticas públicas. >> Inscreva-se até 1 de agosto: https://casademarias.com/grupo-de-acolhimento-emergencial-aberto/ https://casademarias.com/plantao-psicologico-para-mulheres/ * O projeto é coordenado por quatro psicólogas. O grupo de acolhimento emergencial será liderado pela psicóloga Camila Generoso (CRP 06/82630). Psicóloga e psicopedagoga, possui especialização em Desenvolvimento Infantil e aprimoramento em Psicanálise da Criança pela PUC-SP; e pela psicóloga Deisy Pessoa (CRP 06/157161), graduada em Psicologia com ênfase Clínica e Saúde Pública, com atuação na Atenção Psicossocial, trabalhando com a comunidade local do Capão Redondo em ações de inclusão de diversidades nas atividades artísticas terapêuticas oferecidas pelo CECCO. O plantão psicológico é liderado pela psicóloga Eneida de Paula (CRP 06/135390), psicóloga formada pela FMU, com especialização em Psicologia e Relações Raciais – Instituto AMMA Psique e Negritude e em Técnica de Estresse Pós-Traumático segundo Modelo Francine Shapiro – EMDR; e pela psicóloga Lucila Xavier (CRP 06/141984), psicóloga formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência de 5 anos como Acompanhante Terapêutica de crianças e adolescentes com TEA e estágios nas áreas de psicologia jurídica e clínica. Atualmente em formação no curso teórico vivencial de Psicologia e Relações Raciais do Instituto AMMA.